Peça traz duelos poéticos em encenação despojada

Crítica de “Nada de Dois – Seis Duelos Verbais” por Michel Fernandes, especial para o jornal Diário de São Paulo publicado na edição impressa de 25/ 10/2010

"Nada de Dois", de Pedro Mexia e direção de Freed Mesquita

“Nada de Dois – Seis Duelos Verbais” conjuga duas interessantes figuras estreantes em palcos paulistanos: o autor português Pedro Mexia (inédito no país) e o diretor Freed Mesquita (este participou, como ator, de peças dirigidas por Antunes Filho). A peça faz temporada até 9 de novembro na sala Beta do SESC Consolação, às segundas e terças-feiras, 21h.

A cada sessão são sorteadas três cenas que compõem a representação da noite, estabelecendo-se um jogo. Atores, diretores e público selam o pacto da teatralidade, do sim e do não, do real que se afirma convenção e abre espaço para a poesia.

Em formato de cenas isoladas, como se fossem seis peças curtas, mas, ao mesmo tempo, seqüenciais sobre o começo, as crises e o fim do relacionamento entre o casal Joana e Vasco, “Nada de Dois” vai além da discussão da relação. Pedro Mexia tece uma rede poética, com sentidos plurais, em que as intenções estão entrelaçadas ao subtexto das personagens. Como em Tchekhov, importa mais a atmosfera criada pelos diálogos que a visão simplista dos mesmos.

"Nada de Dois", de Pedro Mexia e direção de Freed Mesquita

Freed Mesquita, em direção talentosa, cria um discurso cênico eficiente que evidencia os mecanismos internos do espetáculo – os atores se trocam às vistas do público, manipulam os objetos básicos que dão a ambientação da cena e antecipam o que acontecerá nela 0,

por meio de breves explicações – situando o público em relação às  a cenas não sorteadas. Sentimos estar revivendo as primeiras edições do “Prêt-à-Porter”, com a diferença da marca da direção de Freed, enquanto o outro é mais atoral, ou seja, de autoria do intérprete.

Messias Carvalho interpreta Vasco, um homem inseguro e politicamente correto, com desenvoltura e vigor; já a atriz Mirela Pizani dá vida à Joana, uma personagem tão interessante quanto a existencialista Simone de Beauvoir, com talento superlativo e a exuberância exigida pelo papel.

Nesses gélidos dias em que as relações colocam as pessoas em dois blocos maciços e opostos, sempre é bem-vindo um maçarico a aquecer reflexões, ainda mais quando há o caloroso toque poético.

SERVIÇO:

Sesc Consolação

Endereço:Rua Doutor Vila Nova, 245
Tel.:(11)  3234-3000

Quando:(Seg e Ter) às 21h00. Bilheteria: 12h00 às 22h00 (segunda a sábado); 12h00 às 19h00 (domingo). Ingressos também no CineSesc e nas demais unidades do Sesc. De 04/10 a 09/11.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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