Pinter e A Volta ao Lar sob a ótica de Bruce Gomlevsky no SESC Consolação

Maurício Mellone, editor do Favo do Mellone site parceiro do Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

Arieta Corrêa vive a enigmática Ruth

Clássico do dramaturgo inglês, Harold Pinter, faz referência à parábola cristã do filho pródigo, mas traz à tona o lado sórdido de todos os familiares. Destaque para a atuação de Tonico Pereira, indicado ao Prêmio Shell-RJ/ 2012 de melhor ator

SÃO PAULO – Em curta temporada paulistana (somente até o dia 9 de setembro), a montagem de A Volta ao Lar, considerada obra-prima do dramaturgo britânico Harold Pinter, estreou no Teatro Anchieta (SESC Consolação) depois de temporada de sucesso no Rio de Janeiro. Além de ter contato com uma obra que põe a nu as relações familiares, o público paulistano tem a chance rara de conferir a perfornance de Tonico Pereira, que dificilmente se apresenta na cidade. A composição do ator para Max, o patriarca da família, é vigorosa e foi reconhecida pela crítica carioca, que o indicou ao Prêmio Shell como melhor ator.

Bruce Gowlevsky e Tonico Pereira em "A Volta ao Lar"

Ao entrar, o público dá de cara com a sala da casa de uma família de operários ingleses. O inusitado é que esta família é constituída somente por homens: o patriarca Max (Tonico Pereira), seus dois filhos, Lenny, interpretado por Bruce Gomlevsky — que também assina a direção — e Joey (Milhem Cortaz), além de Sam (Jaime Leibovitch), irmão de Max. A relação entre eles não é nada amigável. E tudo se transforma com a chegada de Teddy (Gustavo Damasceno), o primogênito que estudou e é professor de filosofia nos EUA, que vem com sua esposa Ruth (Arieta Corrêa).

Numa referência à parábola bíblica do filho pródigo, Harold Pinter inverte seu significado: ao invés do perdão do pai ao filho que deixou o lar com parte da herança e volta na miséria, na peça o pai não só recebe o filho com certo desprezo como passa a articular com os demais familiares a exploração do casal, inclusive mantendo, sem qualquer pudor, relações sexuais com Ruth.

"A Volta ao Lar"

Por sua vez, a enigmática personagem de Arieta não é passiva no contato com a família: ao final provoca uma estonteante reviravolta na trama
Com uma crítica mordaz às relações familiares, o autor usa de surrealismo ao esfacelar o sentimento de amor, seja o fraterno, seja filial ou entre os casais.

“Pinter em A Volta ao Lar examina as relações familiares arquetípicas com grande intensidade e riqueza. Além do privilégio em poder trabalhar um clássico da dramaturgia mundial, esta peça é um ótimo exercício para ator e diretor poderem lidar com situações, silêncios e personagens tão ricos, complexos e instigantes, como esses”, diz Bruce Gomlevsky.

Escrita em 1965, a peça (traduzida por Millôr Fernandes) ainda provoca certo desconforto, muito em função da atitude amoral dos personagens. Este estranhamento provocado por Pinter também foi notado na montagem estrelada por Fernanda Montenegro e Sérgio Brito, em 1967. Mas o diretor acredita que a obra é atual “por dissecar a natureza complexa e ambivalente da vida familiar”.

Roteiro:
A Volta ao Lar
. Texto: Harold Pinter. Tradução: Millôr Fernandes. Direção: Bruce Gomlevsky. Assistência de direção: Glauce Guima. Elenco: Tonico Pereira, Arieta Corrêa, Bruce Gomlevsky, Milhem Cortaz, Jaime Leibovitch e Gustavo Damasceno. Iluminação: Luiz Paulo Nenen. Cenografia: Bel Lobo. Figurino: Rita Murtinho. Design gráfico: Redondo Design. Fotos: Guga Melgar. Direção de produção: Carlos Grun. Realização: Cia Teatro Esplendor
Serviço:

SESC Consolação / Teatro Anchieta (280 lugares), Rua Dr. Vila Nova, 245   Tel:11 3234.3000. Horários: sextas e sábados, às 21h e domingos, às 18h. Ingressos: R$32,00, R$16,00 (meia entrada) e R$8,00 (comerciários). Bilheteria: de segunda a sexta das 12 às 22h, sábado das 9 às 22h e domingo das 9 às 18h. Classificação: 16 anos. Duração: 100 min. Temporada: até 09 de setembro.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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