Poesia de Bishop, Marta Góes e Regina Braga no palco do Eva Herz

Michel Fernandes, do Aplauso Brasil (michel@aplausobrasil.com)

Regina Braga é Elizabeth Bishop

Dizem que os melhores vinhos são aqueles que aguardam mais tempo nas adegas para serem degustados. Não que a arte de Um Porto Para Elizabeth Bishop, em cartaz às quartas e quintas-feiras no Teatro Eva Herz, precisasse se depurar, nesse hiato de dez anos a pontuar a primeira da segunda montagem do monólogo, para encantar ao público. A poesia da norte-americana Elizabeth Bishop, decantada pelo olhar delicado e eficaz de Marta Góes interpretado com vigor e talento por Regina Braga re-encontram-se nessa celebração ao bom teatro.

O espetáculo dirigido por José Possi Neto, no mesmo posto que ocupou em 2001, ganha o contorno intimista proporcionado pelo espaço que ocupa. A perda, meramente plástica, é da cenografia de Jean-Pierre Tortil no que diz respeito ao revestimento do palco. Há uma década, acompanhava o material do restante da cenografia (toda ela de madeira clara), hoje é poluída pelo linóleo negro do palco que, definitivamente, não se conforma ao cenário.

Finalizando essa observação comparativa entre as montagens – que, na verdade, não diminuem a fruição da peça – é preciso falar dos efeitos de voz atingidos, aqui, na interpretação de Braga. A atriz consegue a sutileza de dividir a maneira de falar: quando narra fatos ocorridos na trajetória de Elizabeth Bishop o faz com um leve sotaque de uma estrangeira a saborear a musicalidade das palavras aprendidas no Brasil, com o tom íntimo e emocionado de quem escancara o que passa dentro de si.

Abordar a relação de Bishop e Lota da maneira franca, expondo detalhes que contribuem para conflitos entre casais, sem valorar com isso a sexualidade do par envolvido é um dado que faz de Um Porto Para Elizabeth Bishop texto ainda mais interessante.

Em  poucas frases, entretanto, Marta Góes deixa clara a cobrança elevada em casais formados por pessoas do mesmo sexo quando Bishop diz sobre a necessidade delas em se superarem para que se sentissem verdadeiramente aceitas.

Regina Braga como Bishop - Foto: Joao Caldas

Tal sopro delicado de extrema poesia é muito bem vindo de volta.

Roteiro: Um Porto para Elizabeth Bishop. De Marta Goes. Direção de José Possi Neto. Assistente de Direção: Mônica Sucupira. Com Regina Braga. Cenógrafo: Jean Pierre Tortil.Iluminador: Wagner Freire. Trilha Sonora: George Freire. Figurinista: Lu Pimenta. Visagismo: Fabio Namatame. Fotografia: João Caldas Direção de Produção: Brancalyone Produções Artísticas.

Serviço: Teatro Eva Herz da Livraria Cultura – Conjunto Nacional – Avenida Paulista, 2073. Temporada: quartas e quintas às 21h. Até 28 de julho. Bilheteria: (11) 3170-4059. De segunda a sábado, das 14 às 21 horas e aos domingos e feriados, das 12 às 20 horas. Ingressos à venda pela Internet: www.teatroevaherz.com.br ou www.ingresso.com.br. Ingressos – R$ 40,00.Formas de pagamento: dinheiro e todos os cartões de débito e crédito – não aceitam cheque.Classificação etária: a partir de 14 anos. Duração: 70min. Capacidade do teatro: 166 lugares.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.