Programação intensiva de mostras de processos marcam a sexta-feira

Michel Fernandes*, do Aplauso Brasil (Michel@aplausobrasil.com.br)

COTIA – No segundo dia da Mostra de Teatro do Projeto Ademar Guerra quatro processos de trabalho foram compartilhados com o público que, ao final de cada apresentação, dirigiu-se a uma discussão sobre pontos positivos e os que podem ser melhorados dos trabalhos em processo.

A razão da escolha dos processos que são apresentados nessa Mostra de Teatro são claras: são trabalhos com alguns vetores apontados e cuja  troca com o público pode elucidar potencialidades e deficiências, e repito o que disse no artigo de ontem:mesmo que o trabalho apresentado não tenha recebido o elogio esperado,  não significa que o mesmo fracassou em seu propósito, como se trata de apresentações de processo, o que se configura como insucesso são interações para o enriquecimento do trabalho final. A curadoria artística do Projeto Ademar Guerra assinada por Sérgio Ferrara deixa marca preciosa para os grupos que participam do programa, a valorização da pesquisa.

Posto isso, vamos aos processos: o coletivo T.A.P.A., de Taquaritinga, apresentou O Amor se Faz Pelo Sem Fio, uma série de cenas centradas na dramatização de poesias do mineiro Carlos Drummond de Andrade que,  embora não apresente uma dramaturgia fechada, revela potencialidade criativa ao encenar as poesias de Drummond. As palavras do mineiro não são descartadas, mas ressignificadas em ações dramáticas. O desafio maior do grupo é selecionar um norte dramatúrgico para a concepção de um espetáculo.

A Cia. Novos Atores, de Pindamonhangaba, apresentou A Menina, o Bolo e a Bruxa, interessante pesquisa em teatro direcionado ao público infantil. É gratificante perceber que existem artistas empreendendo pesquisas para espetáculos para crianças. Artistas maiúsculos estão comprometidos em desvendar novas formas em se abordar determinado assunto – os Novos Atores se dedicam, no trabalho demonstrado, ao estudo da mímica e da utilização de projeções-, deixando sem segundo plano interesses mercadológicos, afinal arte e produto não devem ser sinônimos.

Antilógica Romântica – um Amor no Terceiro Milênio, do NP³ de Itapevi, é o tipo de projeto interessante e provocador que patina numa pista em que várias possibilidades de caminhos aparecem e, na dúvida por qual deles seguir, derrapa-se no novelo de inúmeras referências. O grupo precisa optar por uma única via e entregar-se com verdade, propriedade e fé cênica. Um lembrete a todos os trabalhos que utilizem músicas com letras: o texto das canções torna a idéia da mesma redundante e, na maior parte das vezes, um ruído que tira a atenção do que se propõe mostrar.

Encerrando o ciclo das apresentações de processos, o grupo Ágape, de Tupã, apresentou um recorte da obra do romeno Eugène Ionesco, um dos pilares do Teatro do Absurdo, cerzido por cenas de três de suas peças, A Lição, A Cantora Careca e O Rinoceronte. Segundo informações trocadas durante debate posterior à apresentação, o trabalho representa uma ruptura formal do grupo Ágape, antes acostumado a verticalizar um texto escrito. Falta que, em alguns momentos, o grupo se aproprie das palavras de Ionesco sem deixar-se conferir ao autor o peso de clássico, ou seja, atribuir maior verdade ao que está sendo dito para que, mesmo a cena mais nonsense seja absolutamente verossímil.

*Michel Fernandes viajou a convite do Projeto Ademar Guerra

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.