Rabbit coloca em cena a crise dos 30 anos

Maurício Mellone, editor do Favo do Mellone site parceiro do Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

"Rabbit" - foto lexandre Charro

Com direção de Eric Lenate, a Companhia Delas de Teatro encena pela primeira vez no Brasil um texto da premiada dramaturga britânica Nina Raine

SÃO  PAULO – Tudo acontece numa noite, numa casa noturna, durante a comemoração de aniversário de Bella. Com tudo para ser só alegria e diversão, o quadro proposto pela dramaturga inglesa Nina Raine em Rabbit (em cartaz no Teatro Eva Herz) é totalmente o oposto. Bella — interpretada em esquema de rodízio por Julia Ianina e Paula Weinfeld —, faz 29 anos e, mesmo sendo uma profissional bem-sucedida, está em crise existencial. Emocionalmente inconstante, ela convidou alguns amigos que não se conhecem para a festa, mas no fundo não desejava estar ali. É que seu pai, vivido por Nelson Baskerville, está na UTI de um hospital, em estado terminal. Para completar a situação, os convidados estão na mesma condição da anfitriã, ou seja, colhem bons frutos na profissão, mas não sabem lidar com seus sentimentos. A crise não é só da aniversariante, mas de toda uma geração que beira os 30 anos em pleno início do século 21 — a peça foi escrita e apresentada em Londres em 2006.

Bella esconde de seus convidados a situação do pai, exceto de Emily (Lilian Damasceno), que é médica. A peça começa somente com as duas em cena e Emily questiona a amiga sobre a razão da comemoração em virtude da saúde de seu pai; no entanto, a aniversariante diz que precisa extravasar e se divertir.

Aos poucos os demais convidados vão chegando: Tom (Ricardo Estevam) é o primeiro e em seguida Richard (Jeronimo Martins). Ambos tiveram relacionamento com Bella; por último é vez de Sandy (Fernanda Castello Branco). Eles não se conhecem e, com a ajuda do álcool, todos se soltam e as verdades começam a surgir.

Bella não consegue disfarçar sua apreensão e, em flashs, lembra-se de seus embates com o pai, que se recusa a fazer uma operação para extrair o tumor instalado no cérebro. Bella é favorável ao tratamento, mas o pai tenta convencê-la de que sua situação é irreversível e ele não pretende se submeter à cirurgia. As cenas entre pai e filha são entrecortadas com as da festa na boate.

"Rabbit" - foto Alexandre Charro

A crise emocional e existencial é comum a todos que estão na festa: na verdade este é o artifício usado pela dramaturga para discutir o momento de crise pelo qual passa quem se aproxima dos 30 anos. À esta crise, junta-se o fato de que hoje os jovens cada vez mais procuram estender a adolescência. Mesmo formados e já atuantes no mercado de trabalho, continuam a morar com os pais e retardam a independência e autonomia na vida.

O diretor enfatiza o lado “infantil” desta geração, tanto que o cenário da boate é um imenso quadrado cheio de bolinhas coloridas de plástico:

“Trata- se de uma geração com uma imensa força motriz, cheia de grandes ideias, mas com uma estranha propensão a se mostrar paralisada. Nossa proposta é levar ao palco esses personagens com toda alegria, irresponsabilidade, melancolia e culpa que podem carregar”, diz Lenate.

Além da sintonia dos atores em cena, Rabbit se destaca pela discussão contemporânea e um tanto corrosiva proposta pela autora, em que a plateia é obrigada a se questionar sobre suas atitudes diante do amor, do sexo, da morte e das relações com os amigos. A concepção cenográfica, assinada pelo diretor, e os elementos cênicos e figurino de Mira Haar também são destaques da montagem, justamente por complementarem o questionamento da geração atual. O trabalho de pesquisa e criação da trilha, do DJ Guab, também merece ser ressaltado.


Roteiro:

Rabbit. Texto: Nina Raine. Tradução: Ricardo Estevam. Direção: Eric Lenate. Elenco: Fernanda Castello Branco, Julia Ianina, Lilian Damasceno, Paula Weinfeld e os atores convidados Nelson Baskerville, Jeronimo Martins e Ricardo Estevam. Direção de arte e figurinos: Mira Haar. Concepção cenográfica: Eric Lenate. Iluminação: Wagner Freire. Trilha sonora original: DJ Guab. Design gráfico: Lilian Citron.Fotos: Alexandre Charro. Produção: Companhia Delas de Teatro.

Serviço:

Teatro Eva Herz (168 lugares), Av. Paulista, 2073. Horários: quintas e sextas às 21h. Ingressos: R$ 40 e R$ 20 (meia-entrada). Bilheteria: terça a sábado, das 14 às 21h; domingo das 12 às 19h. Venda também pelo site www.ingresso.com. Classificação: 14 anos. Duração: 110 minutos. Temporada: até 28 de setembro. No dia 7 de setembro (feriado) a peça será às 18h.a

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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