Rasgo poético no rito de passagem

Alessandra Negrini e Joaquim Lopes em "A Senhora de Dubuque"

Crítica de Michel Fernandes para a peça A Senhora de Dubuque publicada na edição impressa do Diário de São Paulo de 22 de fevereiro de 2011.

Obsessão do autor Edward Albee, ou simplesmente a busca desesperada que satisfaça a eterna interrogação “quem somos?”, é o barco que conduz A Senhora de Dubuque para um poético rito de passagem.

Sob a capa do coloquialismo naturalista, em que amigos se reúnem na casa do casal Jo (a convincente Alessandra Negrini) e Sam (Joaquim Lopes, em interpretação excelente) – à beira da morte pela debilidade causada por uma doença terminal –, símbolos de extremada beleza poética emergem dando toques metafísicos e atemporais ao que é apresentado como possível cópia do mundo real.

Há, também, sutis rompimentos formais na estrutura do texto de Albee como os comentários das personagens dentro da cena, ou seja, a quebra do discurso dramático convencional para o diálogo personagem-plateia, colocando o público no papel de interlocutor que participa ativamente da cena como uma espécie de cúmplice da personagem.

Elenco de "A Senhora Dubuque"

Um jogo de adivinhação do gênero “quem é você?” abre o espetáculo e, paulatinamente, serve para desenhar o caráter daquelas personagens em busca da própria identidade, mesmo navegando sem o leme de auto-conhecimento. Assim, meio a esse jogo, sabe-se que a reunião entre amigos é quase que uma despedida de Jo, ou, como é típico dos que enxergam no outro uma deficiência evidente, a possibilidade de sublimação dos próprios fantasmas diante do naufrágio alheio. O cruel sarcasmo de Jo torna o jogo numa  insuportável troca de farpas e Lucinda (Patrícia Pichamone) verbaliza o que já era fato em troca de olhares, paciência e delicadeza quase que artificiais etc. – “LUCINDA (não tão bondosa) – Eu perdôo você, porque sei que a dor deve ser terrível.”

Quando sozinhos, Sam e Jo, esta tomada por insuportável dor física, a cena preenche-se de delicadeza, o amor entre os dois toma um relevo de intensa suavidade poética que evidencia a relação de companheirismo entre ambos, onde o pesar do porvir trágico, anunciado como desfecho de Jo, cresce proporcionalmente.

Karin Rodrigues e Alessandra Negrini

O Caronte de A Senhora de Dubuque, ou seja, o barqueiro que conduz o espetáculo ao subterrâneo de Hades (deus grego dos mortos), é o ator Leonardo Medeiros que, depois de um hiato de 10 anos como diretor (ele passou o período dedicado a sua carreira de intérprete), extrai do texto de 1977-1979 o sumo para criar sua escrita cênica. De maneira bastante sutil ele consegue um equilíbrio bastante interessante entre distanciamento (comentários narrativos dos personagens para o público) e mergulho nas emoções/ argumentações das personagens nas cenas consideradas dramáticas, ou seja, aquelas dialogadas.

Passada a noite apocalíptica, eis que se instalaram na casa de Sam e Jo, Elizabeth e Oscar, respectivamente Karin Rodrigues e Edson Montenegro, em criações marcantes, temperadas à dupla cômica. Ela diz ser mãe de Jo – a qual a filha reclama a eterna ausência – o que é posto em xeque por Sam e validado pelos mesmos amigos do casal que estavam na cena inicial – Carol (Carolina Manica), Edgar (Luciano Gatti), Fred (Sérgio

Texto, inédito no Brasil, de Edward Albee

Guizé) e Lucinda (Patrícia Pichamone) – o que gera um conflito tratado por Elizabeth e Oscar com ironia e humor ácido conduzidos com maestria pelos atores.

Mas, afinal, quem é o casal misterioso que chega ao lar de Sam e Jo? Elizabeth seria mesmo a mãe de Jo? Seriam ambos invasores sem serem convidados? Seria Elizabeth a representação do útero sagrado que torna-se mortalha sagrada e surge para conduzir, feito Caronte, ao Mundo dos Mortos? Afinal, quem são vocês? Quem somos nós?

O melhor de A Senhora de Dubuque é a ausência de uma resposta concreta. Isso nos leva a sair do Teatro Paulo Autran (SESC Pinheiros) com a inquieta auto-interrogação: afinal quem, realmente, somos?

“A Senhora de Dubuque”

SESC Pinheiros. Teatro Paulo Autran. Rua Paes Leme, 195.

Temporada: até 06 de março

Sextas e sábados, às 21h e domingos às 18h

Duração: 120 minutos (sem intervalo)

Indicação de faixa etária: 14 anos

Capacidade: 700 lugares

Ingressos: R$ 32,00 (inteira); R$ 16,00 (usuário matriculado no SESC e dependentes, maiores de 60 anos, estudantes e professores da rede pública de ensino) R$ 8,00 (trabalhador no comércio e serviços matriculado no SESC e dependentes)

Horário de funcionamento da Unidade – Terças a sextas, das 13 às 22h.

Sábados, domingos e feriados, das 10h às 19h horas.

Horário de funcionamento da Bilheteria: Terça a sexta das 10h às 21h30.

Sábados das 10h às 21h30, domingos e feriados das 10h às 18h30.

Telefone para informações: (11) 3095-9400

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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