Regina Braga brilha mais uma vez em Um Porto Para Elizabeth Bishop

Regina Braga em "Um Porto Para Elizabeth Bishop"

Maurício Mellone, para o site Favo do Mellone, parceiro do Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

Depois de 10 anos, peça de Marta Góes sobre a poeta norte-americana volta a ser encenada em homenagem aos seus 100 anos de nascimento, sob a direção José Possi Neto

Porto, na concepção literal, é local onde alguém pode descansar e se sentir seguro; ter refúgio, guarida, proteção. Foi tudo isso que Elizabeth Bishop encontrou no Brasil, quando chegou em Santos no início dos anos 1950 e por aqui permaneceu durante 15 anos. Para se livrar da depressão e se curar do alcoolismo, a poeta norte-americana viaja pela América do Sul e a convite de Lota Macedo Soares é sua hóspede no Rio de Janeiro.

O que seria uma breve passagem pelo Brasil torna-se o período mais importante de sua vida: aqui sua produção literária foi intensa, foi quando recebeu o Prêmio o Pulitzer e, pessoalmente, viveu um grande amor, ao lado de Lota, uma das mais importantes paisagistas brasileiras, que se notabilizou por fazer parte da equipe que construiu o Aterro do Flamengo.

Marta Góes no monólogo Um Porto para Elizabeth Bishop (em cartaz no Teatro Eva Herz até o final desse mês) mais do que retratar a carreira e a vida da escritora, traça um paralelo entre essa mulher e o Brasil. Com um olhar de estrangeira e querendo entender o modo de vida do brasileiro, Elizabeth faz críticas ao caos reinante no país, ao mesmo tempo em que se encanta pela nossa beleza natural e pela emoção e o carinho acolhedor do povo. “Como o brasileiro sabe cuidar de uma pessoa doente”, é uma das falas da poeta quando relata uma de suas crises vividas aqui.

Regina Braga é Elizabeth Bishop

Se Bishop de 1951 a 1966 em que esteve entre nós viveu um grande amor, reconstruiu sua carreira literária e se sentiu segura para voltar aos Estados Unidos, o Brasil passou também por grandes mudanças. Do apogeu nos anos JK, com destaques na música, cinema, teatro, arquitetura, o país sofreu com o golpe militar e o obscurantismo que se seguiu nos anos de chumbo. Com leves pinceladas, Marta nos oferece esse retrato do Brasil sob o olhar e o perfil da escritora norte-americana.

Esse retrato só se torna vívido graças ao talento de uma grande atriz e as mãos hábeis de um diretor tarimbado. Após 10 anos e para comemorar o centenário de nascimento da poeta, Regina Braga retoma a parceria com José Possi nesse trabalho que rendeu diversos prêmios na época. Encantada pelo tema da peça Regina confessa:

“Sempre soube que voltaria a fazer Bishop. Em 2001 tinha um olhar mais jovem para a personagem. Ter a oportunidade de fazê-la uma década mais tarde me instiga a buscar uma interpretação mais madura”.

Impossível não fazer comparações entre as duas montagens. Além do amadurecimento de todos — mais velho, pude entender melhor a visão da perda e a luta interior para vencer os próprios fantasmas que a escritora relata —, há mudanças físicas de teatro que modificaram a relação palco plateia. Se o cenário de Jean-Pierrre Tortil no Sesc Consolação ganhava dimensões grandiosas (o público percebia o navio chegar no porto de Santos), dessa vez tudo é reduzido, mas não por isso menos intenso. Perde-se espaço, mas ganha-se em intimidade e cumplicidade. Com uma luz delicada de Wagner Freire, Regina de move com leveza e seu tom de voz, principalmente ao final, é quase aos sussurros, podendo ouvir o soluço da plateia. O meu, se não foi ouvido é por que consegui conter!

Roteiro: Um Porto para Elizabeth Bishop. De Marta Goes. Direção de José Possi Neto. Assistente de Direção: Mônica Sucupira. Com Regina Braga. Cenógrafo: Jean Pierre Tortil.Iluminador: Wagner Freire. Trilha Sonora: George Freire. Figurinista: Lu Pimenta. Visagismo: Fabio Namatame. Fotografia: João Caldas Direção de Produção: Brancalyone Produções Artísticas.

Serviço: Teatro Eva Herz da Livraria Cultura – Conjunto Nacional – Avenida Paulista, 2073. Temporada: quartas e quintas às 21h. Até 28 de julho. Bilheteria: (11) 3170-4059. De segunda a sábado, das 14 às 21 horas e aos domingos e feriados, das 12 às 20 horas. Ingressos à venda pela Internet: www.teatroevaherz.com.br ou www.ingresso.com.br. Ingressos – R$ 40,00.Formas de pagamento: dinheiro e todos os cartões de débito e crédito – não aceitam cheque.Classificação etária: a partir de 14 anos. Duração: 70min. Capacidade do teatro: 166 lugares.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

No Comments Yet

Leave a Reply

Seu email não será publicado

*