Relação complexa entre Van Gogh e Gauguin aparece de forma poética em ficção de Thelma Guedes com direção de Roberto Lage

 

 

SÃO PAULO –  Escrito por Thelma Guedes para o diretor Roberto Lage, o espetáculo Van Gogh por Gauguin é uma ficção na qual Gauguin, em um agonizante delírio, vive sob o peso de sua responsabilidade em relação ao final de vida trágico do amigo Vincent. A peça, que estreia no dia 15 de abril, segunda (às 20h), na Sala Paschoal Carlos Magno do Teatro Sérgio Cardoso, personifica de forma poética, simbólica e onírica os conflitos e a admiração incondicional entre os pintores.

Como não se trata de um espetáculo biográfico, mas de um encontro ficcional entre os artistas – vividos por Alex Morenno e Augusto Zacchi, respectivamente -, a direção priorizou o trabalho de interpretação para criar um universo cênico que remeta aos padrões cromáticos dos dois pintores, levando o espectador a refletir sobre o que levou essa grande amizade a um trágico fim. Tendo como apoio a pesquisa biográfica que traz à luz, sobretudo, os pensamentos artísticos divergentes de ambos, a peça privilegia questões humanas com a força de seu alcance na vida dos criadores.

Em um febril período de apenas dois meses, em que eles dividem a pequena Casa Amarela, em Arles, na isolada região rural francesa, vivendo e pintando juntos, as profundas diferenças de temperamento e de visão artística provocam embates, muitas vezes violentos, culminando no famoso e terrível desfecho no qual, após uma forte discussão, Paul decide partir de volta a Paris e Vincent reage, intempestivamente, decepando a própria orelha.

Em 1890, o atormentado Van Gogh tenta suicídio com um tiro na barriga, que o levaria à morte no dia seguinte. Gauguin, por sua vez, em 1891, depois de uma bem-sucedida exposição, realiza o sonho de ir morar no Taiti. Lá, produz vigorosamente até que, abatido por uma sífilis não diagnosticada, vai sendo excluído da sociedade e abandonado pelos seus. É sobre esse episódio mal sucedido que se pauta o espetáculo Van Gogh por Gauguin. “A intenção é trazer para cena um Van Gogh espectral, fruto do inconsciente delirante de Gauguin que, sofrendo com as consequências da sífilis, acredita estar morrendo”, comenta o diretor Roberto Lage.

Por meio de um exercício dramatúrgico de imaginação, a encenação reinventa o momento em que o efeito delirante do arsênico sobre o pintor o leva a acreditar que Van Gogh está ao seu lado, acompanhando o instante de sua morte e, ao mesmo tempo, forçando-o a se lembrar dos momentos que passaram juntos. Em um ambiente decadente, deteriorado e sujo, ele sente fome e muita dor. E seus delírios colocam o público frente às diferenças entre eles, tanto no modo de ver a vida, de agir e de fazer arte, como na evidente admiração de um pelo outro – assumida por Van Gogh, mas dissimulada por Gauguin, numa mistura de inveja com incômoda admiração.

Van Gogh foi considerado um artista maldito, louco; um homem incompreendido pelo seu tempo. Frente a todo o tipo de infortúnio – como miséria, fome, frio e solidão – ele conseguiu deixar um legado de pinturas e desenhos não compreendidos na época em que viveu, mas aclamado após a sua morte. Os vários episódios de sua vida construíram um artista ávido por um amor que nunca foi correspondido, fosse ele a prima que não o quis, o amigo Paul Gauguin por quem tinha profunda admiração ou mesmo a fé que durante muito tempo buscou, mas acabou se rendendo à arte como forma de expressão.

Do ponto de vista realista, a encenação se passa no atelier deteriorado de Paul, nas Ilhas Marquesas. O tratamento cênico busca, pelas nuances da luz (de Kleber Montanheiro), explorando a paleta de cores dos pintores, uma estética posterior ao impressionismo de Van Gogh ou ao pós-impressionismo de Gauguin. O cenário realista (de Paula De Paoli, também figurinista) é ambientado com moldura, cavaletes e tintas; estruturas de quadros e telas aparecem em outra dimensão, sem revelar as supostas obras. Os figurinos recebem o mesmo tratamento realista, sendo o de Van Gogh um pouco mais lúdico.

 

Ficha técnica

 

Texto: Thelma Guedes

Direção: Roberto Lage

Assistente de direção: Joanah Rosa

Elenco: Alex Morenno e Augusto Zacchi

Cenografia e figurino: Paula De Paoli

Iluminação: Kleber Montanheiro

Trilha sonora: Aline Meyer

Projeto gráfico: Paula De Paoli

Fotos e vídeos: Leekyung Kim

Produção executiva: Regilson Feliciano

Operação de luz: Rodrigo Oliveira

Operação de som: Anderson Franco

Direção de produção e administração: Maurício Inafre

Assessoria de imprensa: Verbena Comunicação

Realização: Roberto Lage Produções Artísticas

 

Serviço

 

Espetáculo: Van Gogh por Gauguin

Estreia: 15 de abril. Segunda, às 20h

Temporada: 15/04 a 03/06 – Sábado 18h30, Domingo 19h e Segunda 20h.

Ingressos: R$ 50,00 (meia entrada: R$ 25,00)

Gênero: Drama. Duração: 75 minutos. Classificação: 14 anos

 

Teatro Sérgio Cardoso

Sala Paschoal Carlos Magno (144 lugares)

Rua Rui Barbosa, 153 – Bela Vista. São Paulo/SP.

Tel: (11) 5061-1132

www.teatrosergiocardoso.org.br

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!

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