Crítica de Michel Fernandes ao espetáculo O IDIOTA – UMA NOVELA TEATRAL em duas partes

(michel@aplausobrasil.com)

UM MONUMENTO À DOSTOIÉVSKI – PARTE 1

"O Idiota - Uma Novela Teatral"

SÃO PAULO – Considerado um dos cânones da literatura ocidental, o romance O Idiota, do russo Fiódor Dostoiévski, tem monumental tradução teatral assinada por Cibele Forjaz, aliando qualidades excepcionais de interpretação a soluções cênicas que preenchem a cena estabelecendo um rico diálogo entre as escritas que compõem o todo do espetáculo: utilização artesanal do espaço cênico como se fora uma instalação cenográfica; encenação preocupada em preencher de significados cada elemento, prenhes de simbologia, num prolongamento das possibilidades poéticas evocadas pela peça; um desenho corporal que reforça o desequilíbrio das personagens; o desejo dos intérpretes em atingir, ao mesmo tempo, uma atuação sincera, dinâmica e estilizada; a partitura musical a dialogar o tempo todo com a dramaturgia da cena, enfim, uma riqueza tão elevada de elementos que se nos apresenta que, ao final dos dois dias de representação em que a peça é realizada, resta o desejo de retornar e assistir de outros ângulos.

A divisão do espetáculo em três capítulos, se preferir três atos, estabelece entre público e evento teatral um pacto desafiador. O primeiro dia da representação – que encerra em si o primeiro capítulo que compõe essa epopeia teatral – introduz o espectador naquele universo que caminha pela corda-bamba da sinceridade em se expor o que se pensa, de fato, e a representação do que se sente, como se assim, garantissem a máscara social que julgam ser a mais adequada.

Nessa toada, ao entrarmos no galpão-instalação daquele universo que delineia surpresas vindouras, visualizamos a transmutação dos atores em personagens o que estabelece o pacto entre espaço real, de onde vem o público, para espaço ficcional, em que decidiu se inserir. Em fragmentos de textos, músicas, ações, os atores espalham rastos de Nastássia, Agláia, Kólia, Lisavieta, e  os demais personagens que farão o núcleo central do espetáculo.

O primeiro episódio, da auto-intitulada novela teatral em três capítulos, ocorre dentro do trem que  traz o Príncipe Míchkin (Aury Porto em delicada e minimalista composição) da suíça, onde se tratava da epilepsia, e faz com que alguns dos protagonistas se encontrem pela primeira vez. Por ser uma instalação que representa um trem, público e personagens dividem as poltronas e embarcam juntos ao destino de Míchkin. No trem, Míchkim conhece Ragôjan (Sérgio Siviero, excelente no papel do grotesco novo rico), que acaba de receber uma vultosa herança de seu falecido pai. A empatia entre ambos tornam os dois, desde então, amigos.

Da estação de trem, o príncipe vai para a casa de Lisavieta (Sylvia Prado, como sempre, visceral e de pungência transparente), sua parenta distante que se encanta com a simplicidade, doçura e sensibilidade refinada de Míchkin. Lá conhece, também, Gánia (Silvio Restiffe), empregado de Lisavieta que está à espera da decisão de Nastássia Filippovna (a estonteante Luah Guimarãez), com quem deseja se casar para receber um dote de 75 mil rublos, e Aglaia (Lúcia Romano, cujo real talento pode ser conferido na segunda parte de O Idiota), filha de Lisavieta, mais interessada nas aparências do título principesco de Míchkin que em sua essência humana.

Até esse ponto do espetáculo ainda é possível manter o jogo de aparências entre as personagens, embora, à medida que as cenas avançam, a tentativa de esconder o que realmente motiva os seres ficcionais de O Idiota se torna a cada segundo mais complicado. Sem lugar para ficar, Míchkin aceita o convite de Gánia para ser inquilino de sua casa.

Lá, o príncipe conhece o general Ívolguim (Luís Mármora em criação que condensa todas as grotescas figuras paternas que povoam a obra de Dostoiévski) que o reconhece – foi amigo de seus falecidos pais –, além de Kólia (Fredy Allan que alcança empatia crescente desejável ao desempenho exato do papel).

Notável é a cena em que o general relembra sua falecida mulher e a mesma é representada por Sylvia Prado como uma espécie de retrato tridimensional, cuja vestimenta tem cor que se confunde à da parede dando um magnífico efeito plástico-simbólico da presente, mesmo que espectral, figura da falecida. Ainda na instalação-casa de Gánia, Nastássia chega para convidar a todos para seu aniversário.

Surge Ragôjan,  seguido do interesseiro amigo Lhêbediev (Vanderlei Bernardino que no segundo dia de representação tem salto qualitativo surpreendente), e oferece 100 mil rublos para passar uma noite com a provável “noiva” de Gánia.

A queda do mundo das aparências

O último episódio-instalação desse “capítulo” é a casa de Tôtski, no aniversário de Nastássia, quando ela dirá se aceita ou não se casar com Gánia, mas Ragôjan invade a festa com os cem mil rublos em punho e o pedido de casamento à aniversariante que, ainda, é pedida em casamento por Míchkin.

A questão dessa parte do espetáculo traz em si a súmula temática que permeia toda a obra: o caos reina no paradigma das relações pessoais e, nessa falta de solidez humana, a unidade da certeza é de que tudo é incerto.

A pose alto-burguesa que Nastássia sustentou  na casa de Gánia, sempre observada com desconfiança pelo general Ívolguim e Kólia, respectivamente pai e irmão caçula de Gánia, se revela máscara decaída pela amarga constatação de que é tão-somente mercadoria exposta à venda por Tôtski, que almeja livrar-se da pupila, depois amante, para que não sinta culpa, já que vai se casar e a deixar. Sendo  assim, Fillipovna coloca para fora toda sua ira por sentir-se mercadoria e comove-se, sobremaneira, com a declaração de amor desinteressado que o príncipe Míchkin lhe faz. O que ainda resta de humanidade em Nastássia faz com que ela recuse o pedido de casamento de Míchkin, a quem considera puro demais para sujar-se com o mundanismo reinante dos tempos.

Paira no ar, enquanto Tôtski se despede do público, tratado como convidado da fatídica festa de aniversário, um aroma acre e árido que será solo para o segundo dia de representação.

UM MONUMENTO À DOSTOIÉVSKI – PARTE 2

SÃO PAULO – O segundo dia dessa imersão ao universo de O Idiota e, por consequência, ao de Dostoiévski, concentra o segundo e terceiro capítulos desta “novela teatral” e inicia com um inquieto desfile dos atores em busca de seus personagens. Depois de acomodado o público, os atores dirigem-se para seus desnudos nichos-camarins e, como na primeira noite, soltam fragmentos de frases, trechos de canções, realizam pequenas ações físicas. Só que desta vez o público já criou laços de simpatia, admiração, estranhamento e outras sensações em relação àquelas personagens e consegue enxergar, nesses fragmentos de vida, minúcias que no primeiro dia de O Idiota passaram despercebidas.

Cabe à Sylvia Prado a tarefa de resumir os acontecimentos da noite anterior, o que faz com clareza e talento, situando até o espectador que deixou passar alguma informação que seja relevante para a compreensão total do espetáculo. O recurso narrativo adotado por Cibele Forjaz foge ao lugar-comum da ação de resumir, importando, também, um desenho cênico que se assemelha ao processo de rebobinar um filme para voltar a assisti-lo.

A sequência de cenas posteriores ganha a verve poético-filosófica num diálogo exuberante em que temas como a religiosidade, a inveja, o apego pelo dinheiro, o desejo mundano, as incertezas do amor e, sobretudo, a transmutação de todas as paixões humanas na singela e pura compaixão dão o tom de bela coreografia que mescla belas imagens a ideias de riqueza inimaginável.

A cena passada na casa de Ragôjan (Sergio Siviero), quando Míchkin (Aury Porto) vai visitar o amigo e pedir que este não o considere um rival, pois nesse tempo que viveu com Nastássia (Luah Guimarãez), descobriu que o que imaginava ser amor é, simplesmente, paixão. Os laços fraternos de amizade desinteressada que já se esboçava na primeira cena do primeiro dia de representação são reforçados nesta cena que é de humanidade despudoradamente bela.

"O Idiota - Uma Novela Teatral"

Quando Míchkin deixa a casa de Ragôjan, depois da acalorada e poética cena em que questionam a existência e o significado de Deus, trocando os dois, inclusive, amuletos de proteção, dá-se a sequência onírica que antecede o ataque epiléptico do príncipe, em que personagens que povoam o universo da imaginação e aqueles mais próximos da realidade cotidiana. Dentre os personagens dessa alucinação onírica está a Besta do Apocalipse (personagem interpretado com total força e exuberância por Vanderlei Bernardino) que narra trechos do livro bíblico do Apocalipse, mesclado a elementos da vida profana entre Ragôjan e Nastássia, entre outros. No meio desses episódios, Ragôjan surge para esfaquear Míchkin, porém desiste frente ao impacto da crise epilética do príncipe.

O excessivamente zeloso Lhêbediev (Vanderlei Bernardino, mais uma vez em vigorosa atuação) leva o, doravante, amigo, Míchkin para passar o verão em Pávlovski e aproximá-lo de Nastássia e Aglaia (Lúcia Romano), filha de Lisavieta (Sylvia Prado) e de quem, Lhêbediev acredita, o príncipe esteja enamorado.

O clã do general Ívolguim (Luís Mármora), formado pelos excelentes Freddy Allan e Sílvio Restiffe, respectivamente, Kólia e Gánia, além de Lisavieta e Aglaia – mãe e filha- visitam Míchkin na casa de veraneio, mas eis que revoltado com a récita do poema “O Cavaleiro Pobre”, de Púchkin, por Aglaia, Gánia saca um revólver e ameaça a todos. Essa atitude deixa claro o desequilíbrio desesperado que se apossa de um personagem cujo foco é ser rico para sentir-se feliz.  Depois da atitude do filho, o general percebe que errou profundamente ao consolidar a formação da personalidade de seu filho, sendo o ator responsável por uma emocionante linha declinante da segurança anterior de seu personagem para a atual inadequação em que se encontra.

Depois de alguns episódios em que a atriz Lúcia Romano evidencia o jogo de vontades e contra-vontades de sua Aglaia e da revelação de Míchkin da compaixão em lugar de amar Nastássia, chega o momento em que a filha de Lisavieta – num primeiro momento um tanto abalada porque sua única filha casará com um “idiota”, mas depois feliz com a ideia – apresentará Míchkin à sociedade e esta, além de o rejeitar, ameaça excluir mãe e filha de seu círculo caso Aglaia se case com o príncipe.

A festa de noivado é um baile de máscara em que a “turma do funil” dos altos-burgueses é um profano e bufônico bloco carnavalesco maculando de hipocrisia o que deveria ser uma sagrada festa de noivado.

Deixo ao público o prazer de descobrir o desenlace da trama, só ressalto a alta voltagem com que dá vida à fatal Nastássia Filípovna e, retomando a predição que a cigana Maria Padilha fez à Míchkin: “Cuidado, o amor pode ser uma sentença de morte”.

FICHA TÉCNICA

Autor: Fiódor Dostoievski

Tradução: Paulo Bezerra

Roteiro Adaptado: Aury Porto

Colaboração dramatúrgica: Vadim Nikitin, Luah Guimarãez e Cibele Forjaz

Direção: Cibele Forjaz

Assistente de Direção: Ivan Andrade

Elenco: Aury Porto, Beatriz Morelli, Fredy Allan, Luah Guimarãez, Luís Mármora, Otávio Ortega, Sergio Siviero, Silvio Restiffe, Sylvia Prado e Vanderlei Bernardino

Direção musical /Trilha sonora / Música ao vivo: Otávio Ortega

Operação de Som /Música ao Vivo: Ivan Garro

Cenografia: Laura Vinci

Assistente de Cenografia: Tatiana Tatit

Assistente de Objetos: Marília Teixeira

Contra-Regras: Dani Colazante e Jamile Valente

Figurinos: Joana Porto

Assistente de Figurino: Bia Rivato

Luz: Alessandra Domingues

Assistente e Operação de Luz: Luana Gouveia

Direção de Movimento: Lu Favoreto

Direção Vocal e Interpretativa: Lucia Gayotto

Arte gráfica: Simone Mina

Consultoria Teórica: Elena Vássina

Direção de Produção: Marlene Salgado

Realização e Produção: mundana companhia

SERVIÇO

De 11 de fevereiro a 19 de março de 2012

Sábados, Domingos e Segundas às 18h

Local Oficina Cultural Oswald de Andrade

Rua Tres Rios, 363 – Bom Retiro – São Paulo/SP

Fones: 011 32215558 / 011 32214704

Lotação 80 espectadores por apresentação

Duração 6 horas e meia, com 2 intervalos (o 1º de 30 minutos e o 2º de 20 minutos)

Recomendação A partir de 14 anos

Acesso a deficientes

Entrada franca – Os ingressos da semana serão distribuídos na Oficina Cultural Oswald de Andrade às sextas-feiras a partir das 18h30.