Requintado ritual de passagem

Michel Fernandes, especial para o Último Segundo (michel@aplausobrasil.com)

Rodrigo Pandolfo e Pierre Baitteli em O DESPERTAR DA PRIMAVERA - O MUSICAL

A excelência do teatro musical realizado no país, a cada nova estreia, sobretudo as assinadas por Charles Möeller e Cláudio Botelho (segundo biografia de Tânia Carvalho, Os Reis do Musical), avança incontáveis degraus de aperfeiçoamento reconhecido até pelos menos simpáticos ao gênero. Em O Despertar da Primavera – O Musical, criação de Steven Sater e Duncan Sheik com base na peça homônima do final do século 19, do alemão Frank Wedekind, o que se vê em cena é uma requintada de discussões, propostas por Wedekind, dos tabus que cercam o rito de passagem.

A canção que abre o musical, Mama who bore me (Mamãe me explica), traz num dos significados da palavra bore, atravessar, a chave do que o espetáculo, mesmo que se pense que alguns tabus que ele apresenta já estejam superados nesse século 21, ainda sejam totalmente presentes numa pseudo-evolução de nossa sociedade que continua a protelar discussões mais aprofundadas, ficando apenas à beira dos tabus e fingindo os romper seriamente, do que guiar os mais jovens nessa travessia de sua primavera, o ritual de passagem entre a infância e a adolescência, período em que tantos são os instintos despertados. E a incapacidade da mãe de Wendla, protagonista da trama, em falar franca e profundamente sobre sexo repercute no final da trajetória da personagem.

Frank Wedekind, autor do original (final do século 19) não teve o prazer de assistir sua primeira montagem, pois, publicado em 1891 imediatamente o texto teve seus direitos de encenação cassados pelas autoridades alemãs.

Não é de se admirar que numa sociedade que prefere varrer assuntos indigestos para baixo do tapete hipócrita do moralismo exacerbado, uma peça que desvela tantos tabus como O Despertar da Primavera, incomodasse. Assuntos como o despertar da sexualidade, aborto, suicídio, falta de diálogo entre pais e filhos, incesto, pedofilia, abuso sexual, entre outros, estão em carne viva para um sistema que não deseja sequer se aproximar da ferida.

Embora pensemos que alguns tabus estejam superados, infelizmente, em pleno século 21, o diálogo entre pais e filhos, mesmo que a pauta das conversas entre ambos tenha se alargado, continua deficitário na resposta ao apelo do adolescente para guia-lo nesse período de travessia.

O DESPERTAR DA PRIMAVERA - O MUSICAL

O Musical

Há um fato peculiar no formato musical de O Despertar da Primavera – O Musical: as canções são reflexos do imaginário dos personagens. Diferente da proposta de outros musicais, os números musicais, aqui, não substituem as cenas em seu aspecto de mola de avanço à trama. Um dos grandes acertos dos adaptadores norte-americanos foi não fazer vistas grossas ao potencial dramático do texto e deixa-lo presente, cabendo à parte musical ser um plus e não substituto.

Não-réplica

Há quase uma década, instalou-se uma empresa multinacional de entretenimento que instaurou no país um novo costume: a reprodução de musicais consagrados na Broadway (Nova Iorque) e West End (Londres), a Cie Brasil, agora Time4Fun. Concordemos ou não com o ideário da empresa, é mote para um debate sem fim. A questão mais objetiva e meritosa da empresa é proporcionar aprimoramento técnico para a realização de musicais: seja na preocupação dos atores na preparação vocal e corporal, seja no contato com técnicas facilitadoras na logística de superproduções.

Até o público mudou: ficamos mais exigentes com as produções auto-intituladas superprodução, sobretudo aos musicais que não são meras reproduções, caso de O Despertar da Primavera – O Musical.

Sejam os musicais produzidos por Jorge Takla – como My Fair Lady e O Rei e Eu –, ou os da dupla Charles Möeller & Cláudio Botelho – como Avenida Q e A Noviça Rebelde – já comprovaram a indubitável capacidade de realizarem montagens tão, para não dizer mais, exuberantes quanto aquelas que são as matrizes. Com a vantagem de somar, a partir de suas leituras, a criatividade de que são dotados.

Homossexualidade é um dos tabus tocados em O DESPERTAR DA PRIMAVERA - O MUSICAL

A vantagem da não-réplica está na liberdade de aplicar algo mais autoral ao espetáculo, fugindo do gesso que tende a ser a reprodução de um modelo.

E, assim sendo, a versão brasileira de O Despertar… traz modificações do original que tornam o espetáculo mais contundente e emocional.

O formato original trata os números musicais como se estivessem à parte do espetáculo. A ação da peça é momentaneamente interrompida para que, com microfone de mão, os atores cantem a devida canção, tal qual se fossem cantores num show de pop rock. Talvez, num universo em que a fórmula que rege os musicais norte-americanos, esse desvio programado do que é padrão seja deveras interessante, mas, Möeller e Botelho souberam dosar entre a demasiada radicalidade, incorporando as canções à ação, do original musical  e a força do original de Frank Wedekind, dando um sabor próprio à juventude atual sem perder o tempero do original do século 19, por si só à frente de seu tempo.

Some-se à nova roupagem dada pela dupla carioca à bem cuidada produção com elegantes e belíssimos figurinos de Marcelo Pies, a funcional e, igualmente bela, cenografia de Rogério Falcão, a premiada e expressionista iluminação de Paulo César Medeiros.

Cláudio Botelho extrai da música de O Despertar… uma interessante e requintada mescla entre o pop-rock e o erudito com instrumentos como o violino, seguindo, à risca, a música original e dando à versão brasileira letras de extrema poesia e próximas à nossa realidade.

Do elenco, o destaque principal é para o ator Pierre Baitteli que, na pele de Melchior, alcança verdade, intensidade e carisma raro. Débora Olivieri e Eduardo Semerjian, nos papéis dos personagens mais maduros, alcançam desempenho satisfatório, assim como Malu Rodrigues (Wendla) e Rodrigo Pandolfo (Moritz).

Charles Möeller e Alonso Barros, respectivamente na direção geral e coreografias completam a exuberante equipe criativa do espetáculo.

O DESPERTAR DA PRIMAVERA – O MUSICAL

Música de Ducan Sheik

Texto e Letras de Steven Sater

Baseado na obra de Frank Wedekind

DIREÇÃO

Charles Möeller

VERSÃO BRASILEIRA / SUPERVISÃO MUSICAL

Claudio Botelho

DIREÇÃO MUSICAL

Marcelo Castro

COREOGRAFIA

Alonso Barros

CENÁRIO

Rogério Falcão

FIGURINOS

Marcelo Pies

VISAGISMO

Beto Carramanhos

DESIGN DE LUZ

Paulo César Medeiros

DESIGN DE SOM

Marcelo Claret

COORDENAÇÃO ARTÍSTICA

Tina Salles

ELENCO

Malu Rodrigues

Letícia Colin

Pierre Baitelli

Rodrigo Pandolfo

Thiago Amaral

Débora Olivieri e Eduardo Semerjian

com:

Alice Motta

André Loddi

Bruno Sigrist

Clara Verdier

Danilo Timm

Davi Guilhermme

Eline Porto

Estrela Blanco

Felipe de Carolis

Felipe Tavolaro

Laura Lobo

Lua Blanco

Mariah Viamonte

Thiago Marinho

PRODUTOR EXECUTIVO

Luiz Calainho

DIREÇÃO DE PRODUÇÃO

Aniela Jordan

Beatriz Secchin Braga

Monica Athayde Lopes

UM ESPETÁCULO DE

Charles Möeller & Claudio Botelho

SERVIÇO

O Despertar da Primavera – O Musical

Teatro Sergio Cardoso

Rua Rui Barbosa, 153 – Bela Vista

Tel: (11) 3288-0136

Temporada até 2 de maio

Quintas, sextas e sábados, às 21h.

Domingos, às 18h.

Ingressos a R$ 60.

Classificação etária: 14 anos

Lotação: 856 lugares

Duração do espetáculo: 120 minutos (mais intervalo)

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Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.