SÃO PAULO – Depois e curta temporada no SESC Consolação, a peça 1984, uma adaptação do romance de George Orwell, está de volta à cidade. Com direção e tradução de Zé Henrique de Paula, a montagem é a versão dos britânicos Duncan MacMillan e Robert Icke da obra de Orwell, publicada em 1949, quando causou grande impacto. A trama se passa num período futuro em que a sociedade é controlada pelo Grande Irmão, que assumiu o poder da fictícia Oceânia depois de uma guerra global que eliminou as nações rivais. Sob uma rígida censura, as pessoas são vigiadas a todo instante por teletelas (câmeras) e Winston Smith, vivido por Rodrigo Caetano, trabalha no Ministério da Verdade, onde falsifica registros históricos; no entanto ele escreve um diário com suas ideias contrárias ao sistema.

A montagem do Núcleo Experimental de Teatro, baseada na adaptação britânica, ao contrário do livro, narra os acontecimentos em três dimensões, realidade, alucinação e memória. A peça começa com um grupo lendo o diário de Winston, num futuro distante, enquanto ele não sabe se tudo aquilo é real, sonho ou fruto de sua imaginação. Segundo o diretor, a peça questiona as coisas em que as pessoas acreditam e se é possível crer no que elas dizem. Na obra de Orwell, há a novilíngua (supressão de termos para evitar o pensamento) e na peça enfatiza-se o conceito de duplopensamento: será que é possível acreditar em ideias contraditórias?

Winston ganha força quando se apaixona por Julia, interpretada por Gabriela Fontana: ambos acreditam na possibilidade de rebelião popular contra o sistema. No entanto, eles são traídos por O’Brien, papel de Carmo Dalla Vecchia, que lidera a tortura contra Winston.

Em pleno período eleitoral que estamos vivendo, com o país dividido entre ideologias extremas, confesso que a montagem me deixou ainda mais estarrecido com tanta violência, opressão e desrespeito às liberdades individuais — o personagem que encarna a repressão faz o gesto com as mãos e braços imitando arma de fogo, idêntico ao presidenciável da extrema direita! Outro senão do espetáculo, além da ênfase à opressão, é a falta de clareza aos momentos de realidade e alucinação do personagem central; a peça também é muito longa. Entretanto, a obra de Orwell tem sua relevância histórica e literária e esta versão teatral ajuda a compreender a proposta crítica e distópica do autor britânico.

Roteiro:
1984. Texto: George Orwell. Adaptação: Duncan MacMillan e Robert Icke. Tradução, direção e figurinos: Zé Henrique de Paula. Assistente de direção: Felipe Ramos. Direção musical: Fernanda Maia. Elenco: Carmo Dalla Vecchia, Rodrigo Caetano, Gabriela Fontana, Eric Lenate, Rogerio Brito, Inês Aranha / Adriana Alencar, Laerte Késsimos, Fabio Redkowicz, Chiara Scallet e Zé Henrique de Paula (stand in). Preparador corporal: Gabriel Malo. Cenografia: Bruno Anselmo. Iluminação: Fran Barros. Designer de som: João Baracho. Fotografia: Jonatas Marques. Produção: Claudia Miranda. Realização: Núcleo Experimental.
Serviço:
Teatro Porto Seguro (496 lugares), Al. Barão de Piracicaba, 740, tel. 11 3226-7300. Horários: quarta e quinta às 21h Ingressos: de R$ 60 a R$ 20. Bilheteria: de terça a sábado das 13h às 21h e domingo das 12h às 19h. Serviço de vans gratuitas da Estação Luz até o teatro. Duração: 90 min. Classificação: 14 anos. Temporada: até 6 de dezembro.

* Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil