RESENHA: CIA TEATRO DO INCÊNDIO REMONTA CLÁSSICO DE FAUZI ARAP

Maurício Mellone * (redacao@aplausobrasil.com.br)

Pano de Boca com Marcelo MarcusFonseca (foto). Foto/crédito:- Don Fernando.
Pano de Boca com Marcelo MarcusFonseca (foto). Foto/crédito:- Don Fernando.

SÃO PAULO – Para marcar a inauguração da nova sede, localizada no boêmio bairro do Bixiga, a Cia Teatro do Incêndio resolveu homenagear dois ícones do teatro paulistano e remonta o clássico de Fauzi Arap, Pano de Boca, utilizando cenário e figurino baseados nos desenhos da montagem original do saudoso Flávio Império. E para a abertura de um novo teatro, nada mais apropriado do que este texto de Fauzi, em que a discussão central é o fazer teatral na sua essência. Montada em 1976 pelo autor — que antes de falecer em 2013 autorizou a remontagem —, a peça tem direção de Marcelo Marcus Fonseca, que também encabeça o elenco, e retrata o esfacelamento de um grupo teatral em que os atores ultrapassaram os limites entre a arte e a vida.

A própria concepção e estrutura da nova sala de espetáculos faz com que o público, ao entrar e se sentar, já se integre ao espaço cênico, que remete a um teatro abandonado repleto de elementos e sobras de cenários e figurinos de antigas montagens. O texto é constituído de três planos de ação que se intercalam no transcorrer da trama; no primeiro plano há dois personagens (Pagão/ Marcelo Fonseca e Segundo/ Francisco da Silva) que reivindicam com o autor, em crise de criação, a continuidade da história, que no fundo representa a razão da existência deles. No segundo plano há a atriz Magra (Gabriela Morato), que num tom de desabafo e lamento explicita a desintegração total do grupo teatral que até então ela fazia parte. E o terceiro plano traz os atores chegando ao teatro abandonado para uma reunião marcada por alguém não identificado. É exatamente neste contexto que o fazer teatral é questionado profundamente.

Pano de Boca traz a única discussão oportuna nos tempos atuais sobre a criação, o teatro e a espiritualidade em um tempo em que a esquizofrenia é gerada pela velocidade, atirando o homem no abismo da disputa pelo sucesso, do isolamento, da poluição sonora, da intolerância. Este texto é urgente e necessário, pois aproxima o espectador da cabeça do autor no momento da criação”, explica o diretor Marcelo Fonseca.

Remontar um texto de grande sucesso e ao mesmo tempo homenagear o autor e o cenógrafo da montagem original é mais do que uma atitude louvável da Cia Teatro do Incêndio. A discussão de Pano de Boca, no entanto, por se prender essencialmente ao teatro, pode restringir seu alcance e falar para um público reduzido.

Tive a chance de assistir a estreia e ter a honra de fazer parte de uma plateia que reuniu artistas muito próximos de Fauzi Arap. Além da criativa reconstituição cenográfica, Pano de Boca se destaca pela cuidadosa direção, a bela iluminação de Rodrigo Alves e a interpretação contagiante e visceral de Gabriela Morato, Marcelo Marcus Fonseca e Daniel Ortega.

* Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

Roteiro:

Pano de Boca. Texto: Fauzi Arap. Direção: Marcelo Marcus Fonseca. Elenco: Gabriela Morato, Marcelo Marcus Fonseca, Daniel Ortega, Josemir Kowalick, Francisco da Silva, Gustavo Oliveira, Rebeca Ristoff, Victor Dallmann e Ana Beatriz Pereira. Cenário: Marcelo Marcus Fonseca (a partir da obra de Flávio Império). Figurinos e adereço: Gabriela Morato. Trilha sonora original: Bisdré Santos. Iluminação: Rodrigo Alves. Voz da esfinge : José Celso Martinez Correa. Fotografia: Don Fernando. Realização e produção: Cia. Teatro do Incêndio.

Serviço:

Teatro do Incêndio (75 lugares), Rua 13 de Maio, 53, tel: (11) 2609-3730. Horários:

sábado às 20h, domingo às 18h e segunda às 20h. Ingressos: R$ 5,00 (preço único).

Duração: 120 min. Classificação: 16 anos. Temporada: até 14 de setembro.

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