Resenha: Clara Carvalho dirige montagem de surrealismo contemporâneo

SÃO PAULO – A atriz e diretora Clara Carvalho novamente se debruça sobre a obra do dramaturgo romeno contemporâneo Matéi Visniec. Depois de já ter encenado outras peças do autor — A Máquina Tchekhov (em parceria com Denise Weinberg em 2015) e Condomínio Visniec neste ano —, desta vez ela dirige Ricardo III ou cenas da vida de Meierhold. Com um elenco de oito atores liderado por Rubens Caribé, Livia Prestes e Rogério Brito, a trama surrealista e com viés do teatro do absurdo mostra o diretor russo Vsevolod Meierhold (expoente da vanguarda teatral do início do século XX) tentando montar o clássico de Shakespeare, Ricardo III. No entanto, a peça se passa dentro da cabeça do diretor nos momentos finais de sua vida, antes de ser fuzilado na prisão pelo regime totalitário de Stalin. O espectador se depara, desta forma, com personagens reais e imaginários.

Neste espetáculo, o público está diante de uma peça dentro de outra peça. O famoso diretor russo Meierhold, interpretado por Caribé, deseja montar o texto de Shakespeare, mas o seu trabalho só pode ser levado ao palco se for aprovado pela comissão do governo, liderada pelo comandante (papel de Duda Mamberti). O diretor, para conceber o trabalho, precisa conciliar o texto original, a sua visão sobre a obra de Shakespeare e o desejo dos governantes autoritários. Tarefa um tanto inglória! Desta forma, o que o público vê em cena é a peça que se passa dentro da cabeça de Meierhold. Difícil saber se o personagem Ricardo III, papel de Rogério Brito, a esposa do diretor, interpretada por Livia, o comandante e os demais papéis da trama de Shakespeare são reais ou fruto da imaginação do encenador. Para a diretora, este texto pode ser compreendido como uma meditação sobre o mal:

“O Meierhold de Visniec diz que Ricardo III seria um virtuoso do mal. O encenador quer apresentar este personagem, contrariando a tal comissão, como um homem banal, simples, que mata para ter poder. Esta discussão é o centro da peça e em torno dela somos apresentados a um carrossel de personagens — algumas baseadas em figuras reais, outras inventadas — que dão vida a um painel de memórias e fantasias, em que o trágico mistura-se ao ridículo”, esclarece Clara Carvalho.

Mesmo se tratando de uma dramaturgia densa, que exige concentração total do espectador, a encenação cativa por sua beleza plástica. A diretora se vale muito da criatividade de sua equipe técnica: a iluminação de Wagner Pinto, os cenários de Chris Aizner (destaque para o boneco criado por Beto Andreta) e a trilha sonora de Ricardo Severo são elementos essenciais para a condução cênica. Por ser atriz, Clara dá ênfase à interpretação e os atores correspondem, com grande sintonia em cena; destaque para Rubens Caribé (com mais uma grande composição de personagem em sua carreira), Livia Prestes, Rogério Brito e Duda Mamberti.

Contemplado pelo Prêmio Zé Renato de Teatro para a cidade de São Paulo, o espetáculo permanece em cartaz até início de julho.

Roteiro:
Ricardo III ou cenas da vida de Meierhold
. Texto: Matéi Visniec. Tradução: Roberto Mallet. Direção: Clara Carvalho. Assistente de direção: Mariana Muniz. Elenco: Rubens Caribé, Duda Mamberti, Fernanda Gonçalves, Junior Cabral, Livia Prestes, Mara Faustino, Rogério Brito e Rogério Pércore. Cenografia e figurino: Cris Aizner. Bonecos: Beto Andreta.  Aderecista: Nilton Araújo. Iluminação: Wagner Pinto. Trilha original: Ricardo Severo. Fotografia: Luciana Zacarias.  Direção de produção: Daniel Palmeira. Produção/Idealização: Livia Prestes.
Serviço:
CCSP – Sala Jardel Filho (321 lugares), Rua Vergueiro, 1.000, tel. 113397 4002. Horários: sexta e sábado às 21h e domingo às 20h (sessões às quintas dias 6, 13 e 20 de junho às 21h). Ingressos: R$ 30. Duração: 90 min. Classificação: 14 anos. Temporada: até 7 de julho.


* Maurício Mellone publicou o texto no 
www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

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