Resenha: Clássico de Nelson Rodrigues revisitado por Bruno Perillo

SÃO PAULO – Depois de estrear no SESC Santo André, a montagem do texto clássico de Nelson Rodrigues, O Beijo no Asfalto, encerra temporada na próxima semana. Com um elenco composto por nove atores e sob a direção ágil e ousada de Bruno Perillo, a peça retrata a sociedade brasileira da década de 1960, revelando seu lado mais conservador, puritano e preconceituoso.

Diante de um atropelamento no trânsito, a vítima, um homem, pede um beijo ao rapaz que vem socorrê-lo; logo após o beijo na boca entre os dois, visto por muitas pessoas, o atropelado morre e, no dia seguinte, o caso vira um escândalo graças ao sensacionalismo criado pela imprensa, numa época muito anterior às fake news. Incrível a atualidade do texto de Nelson Rodrigues, que contribui para a discussão sobre a guinada conservadora que a sociedade brasileira e mundial vem adotando ultimamente.

Já revisitado inúmeras vezes, tanto no teatro como no cinema — no ano passado Murilo Benício trouxe sua versão para as telonas —, o texto clássico de Nelson é datado, fim dos anos 1950 e início dos 1960, mas provoca reflexões até hoje.

“O texto de repente ganhou nova dimensão, sem necessidade de adaptação. As fake news inundam nossa percepção do mundo diariamente e é preciso uma capacidade em discernimento enormes para conseguir ler a realidade. O Beijo no Asfalto, na genialidade de Nelson Rodrigues, trazia esta semente com muita força. Além disso, a avalanche conservadora e moralista que hoje atropelou a sociedade brasileira aparece no texto de forma nítida”, diz Bruno Perillo.

Com um cenário mínimo, nesta montagem os atores permanecem em cena o tempo todo: no centro do palco há uma grande faixa de pedestre e as cenas acontecem ali, como se tudo ocorresse publicamente, aos olhos de todos (os atores que não participam da ação estão ao lado, como observadores ativos, assim como os espectadores).

É desta forma que é narrado o drama de Arandir, vivido por Anderson Negreiros, que após o beijo, assistido pelos transeuntes inclusive por seu sogro Aprígio (Mauro Schames), se vê envolvido num escândalo e tudo vira um tormento em sua vida. O repórter policial Amado Ribeiro (Roberto Audio), aliado ao delegado inescrupuloso (Heitor Goldflus), propala pelo jornal que Arandir mantinha uma relação afetiva com o atropelado, o que abala seu casamento com Selminha, papel de Rita Pisano, e sua relação com a jovem Dália (Natalia Gonsales), sua cunhada. Se na época não existiam redes sociais nem celulares, o telefone exercia o papel de propagar a mentira e atormentar as pessoas por meio de trotes e telefonemas anônimos.

De um ato solidário (dar o beijo solicitado pelo moribundo), o texto de Nelson faz uma radiografia da sociedade da época, mostrando o preconceito, a homofobia e o moralismo das pessoas.

Infelizmente, passados quase 60 anos, vemos poucas mudanças. O diretor acrescenta ainda que a montagem, por trazer um ator negro como protagonista, acrescenta mais um elemento:

“O Brasil é um país racista e passa hoje por um momento terrível de sua história. O símbolo do atropelamento serve pra tudo isso: o desfecho de Arandir ganha a dimensão trágica de crime racial, mais do que passional a que o texto remete”, afirma Perillo.

Além da força da dramaturgia e da direção criativa, o espetáculo ganha força graças à coesão da interpretação dos talentosos atores, com destaque para a atuação de Anderson Negreiros, Roberto Audio, Heitor Goldflus, Rita Pisano e Natalia Gonsales.


Roteiro:
O Beijo no Asfalto
. Texto: Nelson Rodrigues.  Direção: Bruno Perillo. Elenco: Anderson Negreiros, Angela Ribeiro, Heitor Goldflus, Lucas Lentini, Mauro Schames, Natalia Gonsales, Rita Pisano, Roberto Audio e Valdir Rivaben. Assistente de direção: Fabio Mráz. Cenografia: Marisa Bentivegna. Figurino: Anne Cerruti. Iluminação: Aline Santini. Trilha sonora: Dr. Morris. Fotografia: Kim Leekyung. Produtor executivo: Fabrício Síndice. Realização: Sesc SP. 


Serviço:
Teatro do Núcleo Experimental (60 lugares), Rua Barra Funda, 637, tel. 11 3259-0898. Horários: quarta e quinta às 21h. Ingressos: R$ 40 e $ 20. Duração: 80 min. Classificação: 14 anos. Temporada: até 12 de dezembro. .

* Maurício Mellone publicou o texto no 
www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

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