RESENHA: COMÉDIA E SURPRESA DEFINEM PEÇA COM ANTONIO FAGUNDES

SÃO PAULO – O dramaturgo argentino Matias Del Federico utiliza em sua peça Baixa Terapia um recurso peculiar para prender a atenção do público: situações da vida íntima de marido e mulher discutidas por três casais de idades diferentes, sempre com muito humor; no entanto, ao final há uma reviravolta no clima com o surgimento de um tema dramático. 0E o diferencial desta proposta é que tudo é conduzido por um personagem ausente: a terapeuta convoca seus pacientes Ariel e Paula, interpretados por Antonio Fagundes e Mara Carvalho, Andrea e Roberto, vividos por Ilana Kaplan e Fábio Espósito, e os jovens Estevão e Tamara, papéis de Bruno Fagundes e Alexandra Martins, para que discutam seus problemas em conjunto e sem a presença dela. Uma grande DR (discussão da relação) com os três casais, em que as situações vividas por eles são muito comuns a cada um de nós.

Com direção de Marco Antônio Pâmio, a trama tem início com a chegada do primeiro casal ao consultório — com apenas algumas cadeiras, um sofá e uma mesa com café, água e whisky —, justamente o que tem mais tempo de vida em comum, Ariel e Paula. Em seguida entram Estevão e Tamara que planejam morar juntos em breve e, por último, chegam a tímida Andrea e seu marido Roberto, que logo reclama de ter sido obrigado a acompanhar a esposa à terapia. Todos estranham a ausência da terapeuta, mas logo descobrem o plano dela. Há um bilhete com as instruções da sessão, ou seja, que se discutam os problemas conjuntamente, seguindo a sequência de envelopes. Dado o início, eles percebem que em cada envelope há uma questão a ser debatida relacionada a um casal. Desta forma, várias situações do cotidiano vividas pelos casais são reveladas e discutidas pelos seis. Com o desenrolar da discussão, todos se soltam (alguns com o auxílio do whisky) e o tom cômico, irônico e sarcástico toma conta do ambiente, levando a plateia a dar boas gargalhadas.

Com o espectador já conhecendo as características de cada personagem, vem à tona uma questão que muda radicalmente o clima da trama, forçando uma reflexão mais profunda. Este jogo cênico proposto pelo dramaturgo é que mais me chamou a atenção.

Além do texto e a precisa condução de Pâmio, que valoriza cada personagem, o destaque da montagem fica para a atuação de Antonio Fagundes, que está solto e à vontade na comédia, que há anos ele não fazia. Entretanto, quem ganha a cena é Ilana Kaplan: seu papel tem poucas falas, mas quando se coloca é sempre com lucidez; e a virada da trama se dá graças a sua interpretação, da comédia rasgada ela pula num átimo para o mais profundo drama.

Como sempre acontece em suas produções, Fagundes abre o bate papo com a plateia no final das apresentações. E desta vez, quem se interessar, pode conhecer os bastidores da montagem: com um acréscimo no ingresso, o espectador faz uma visita pelos camarins e pelo palco.

 

Roteiro:
Baixa Terapia. Texto: Matias Del Federico. Adaptação: Daniel Veronese. Tradução: Clarisse Abujamra. Direção: Marco Antônio Pâmio. Elenco: Antonio Fagundes, Mara Carvalho, Alexandra Martins, Ilana Kaplan, Fábio Espósito e Bruno Fagundes. Diretor de produção: Carlos Martin. Fotografia: Caio Gallucci.  Cenário e figurino: Fábio Namatame. Iluminação: Silviane Ticher. Sonoplastia: Kleber Marques.
Serviço:

Teatro Tuca (672 lugares), Rua Monte Alegre, 1.024, tel. 11 3670-8455. Horários: sexta às 21h30, sábado às 20h e domingo às 19h. Ingressos: sexta R$ 60, sábado R$ 80 e domingo R$ 70. Bilheteria: de terça a domingo das 14h às 20h. Vendas: tel. 11 4003-1212 ou www.ingressorapido.com.br. Duração: 80 min. Classificação: 14 anos. Temporada: até 30/07.

Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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