SÃO PAULO – Com uma trupe formada por 14 artistas, entre atores e músicos, o espetáculo Molière – uma comédia musical marca a estreia da dramaturga mexicana Sabrina Berman no Brasil. A trama recria o velho duelo entre a comédia e a tragédia — é mais nobre fazer o público rir ou chorar? —, trazendo de um lado Molière/Jean-Baptiste Poquelin, interpretado por Matheus Nachtergaele e de outro Jean Racine, vivido por Elcio Nogueira Seixas. Tudo se passa na corte do extravagante Luís XIV, papel de Nilton Bicudo, em que o Arcebispo de Paris, Monsenhor Péréfixe, vivido pelo veterano Renato Borghi, exerce seu poder de censura e se aproveita da disputa entre os dois dramaturgos para banir o Teatro não só da corte como de toda a França.
Dirigida por Diego Fortes e com cenário de André Cortez, a comédia musical é conduzida por canções de Caetano Veloso, todas com arranjos originais do maestro Gilson Fukushima.

Vindo de um monólogo (Processo de Conscerto do Desejo), Matheus Nachtergaele desta vez divide o palco com diversos atores e músicos. Na pele do grande dramaturgo francês, Molière, que era até então o favorito do rei, o ator dá início a peça com a apresentação para a corte de um número musical de uma de suas comédias. Depois dos efusivos aplausos, Molière recebe a visita de um antigo discípulo, Jean Racine, que pede para ele encenar sua última tragédia. Com tato e ao mesmo tempo com desdém, Molière recusa a oferta, mas o jovem não desiste. Procura o Arcebispo, que o apoia e articula uma forma para que o Luís XIV assista à peça trágica de Racine. O duelo entre a comédia e a tragédia é promovido pelo poderoso religioso que se aproveita da disputa entre os dramaturgos para promover um caça as bruxas na corte e implantar um sistema de censura e de extremo moralismo no país.

Graças ao cenário de André Cortez que mescla ficção e realidade, o espectador assiste tanto aos espetáculos de Molière e Racine como a reação da corte na plateia, além do cotidiano da trupe fora dos palcos. Mais que o duelo entre os estilos, a trama evidencia o sucesso, o fracasso e o retorno de Molière ao cenário artístico, assim como a ascensão de Racine e seu arrependimento, além do sórdido jogo político do Arcebispo.

O que sobressai da montagem, sem dúvida, é o entrosamento em cena do numeroso elenco e a performance de Matheus, Elcio e Renato. Os inusitados arranjos para as canções de Caetano Veloso também merecem destaque. Único senão: a longa duração do espetáculo, que poderia ser mais ágil com um pequeno corte.

Roteiro:
Molière – uma comédia musical. Texto: Sabina Berman. Tradução: Elcio Nogueira Seixas e Renato Borghi. Adaptação: Diego Fortes e Luci Collin. Direção: Diego Fortes. Elenco: Matheus Nachtergaele, Elcio Nogueira Seixas, Renato Borghi, Nilton Bicudo, Rafael Camargo, Luciana Borghi, Georgette Fadel, Regina França, Marco Bravo, Débora Veneziani, Edith de Camargo, Fábio Cardoso, Maria Fernanda e Beatriz Lima. Cenografia: André Cortez. Figurino: Karlla Girotto. Direção musical: Gilson Fukushima. Iluminação: Beto Bruel e Nadja Naira. Fotos: Eika Yabusame e Paulo Uras. Idealização: Teatro Promíscuo, Flo Produções e Lady Camis. Produção: Daltrozo Produções.
Serviço:
Teatro Popular do Sesi (456 lugares), Av. Paulista, 1313, tel. 11 3146-7439. Horários: de quinta a sábado às 20h e domingo às 19h. Ingressos: gratuitos (reserva de ingressos pelo site www.centroculturalfiesp.com.br ou remanescentes na bilheteria do teatro, de quarta a sábado, das 13h às 20h30 e domingo, das 11h às 19h). Duração 120 min. Classificação: 16 anos. Temporada: até 29 de julho de 2018.

* Maurício Mellone publicou o texto no 
www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil