Resenha: crise existencial de um ator retratada em montagem de Sérgio Ferrara

SÃO PAULO – Um grande projeto que acontece no SESC 24 de Maio marca as comemorações de 30 anos de carreira do dramaturgo paulistano Samir Yazbek. Além da montagem de Sérgio Ferrara da inédita O Eterno Retorno, o projeto conta ainda com leituras dramáticas de cinco peças, todas inéditas, um debate sobre dramaturgia contemporânea brasileira e uma oficina de iniciação à dramaturgia. Na montagem, o foco é para um ator, vivido por Luciano Gatti, que está num momento de crise profissional e existencial; ele sente-se dividido entre a vocação artística e a necessidade de sobrevivência. Elenco se completa com Carlos Palma, Patrícia Gasppar, Helô Cintra Castilho e Gustavo Haddad.

O espetáculo tem início com a cena de um monólogo sobre o poeta francês Charles-Pierre Baudelaire que o ator — nenhum personagem tem nome, são identificados pelo grau de afetividade entre eles — pretende montar. Ele é interrompido pelo produtor (Haddad), que vem para contar uma novidade: eles conseguiram patrocínio para a peça que está em cartaz há anos poder excursionar pelo país. O ator festeja com o amigo, mas deseja continuar seu ensaio. Porém, novamente é interrompido com a chegada da namorada (Helô), que vai embora depois de uma ríspida discussão. Neste instante, o espectador percebe que o ator também é interrompido por outras pessoas, que fazem parte do plano da imaginação e da memória: ele ouve e discute tanto com seu primeiro diretor teatral (Palma) como com a mãe (Patrícia).

Na verdade o ator está numa encruzilhada entre assumir um papel na TV, viajar pelo país com o velho espetáculo (que ele não acredita mais) ou mergulhar em seu projeto teatral sobre Baudelaire. Os conflitos entre a vocação profissional, a necessidade de sobrevivência e sua vida amorosa permeiam o universo deste ator.

“Quem é mais importante, o ser humano ou o artista que habita o ser humano? Essa peça procura lançar mais perguntas do que respostas. É um poema que fala sobre a busca de si mesmo e como os pesados obstáculos se opõem ao florescimento da poesia nas nossas vidas. Precisamos resistir a eles. A resistência necessita dos oásis da vida poética”, argumenta Sérgio Ferrara no programa da peça.

A proposta dramática de Yasbek é refletir sobre o mundo artístico, por meio da vida do ator que se encontra em crise. No entanto, as reflexões que a peça provoca ultrapassam o mundo das artes e atinge a todos, principalmente sobre o questionamento da manutenção de um sonho de vida a ser realizado em contraposição à necessidade de se pagar as contas do dia a dia. Particularmente fiquei muito tocado, pois frases dos personagens eu já as pronunciei e ouvi de amigos e parentes.

Além da dramaturgia que provoca profundas reflexões, a encenação de Ferrara envolve o espectador, que percebe o que é real e o que é imaginário a partir do espaço do cenário onde a ação é desenvolvida. A iluminação também é fundamental para a condução da trama e o figurino merece destaque: os vestidos da namorada e da mãe salientam ainda mais a importância delas na vida daquele homem. E, sem dúvida, a interpretação visceral de Luciano Gatti evidencia ainda mais o drama vivido por seu personagem. Destaque para os embates do ator com cada um dos outros personagens; a cena em que ele tem de lidar com a interferência de todos ao mesmo tempo é exemplar e síntese da proposta dramaturgia, ou seja, lançar perguntas e deixar com que o espectador possa responder ou refletir sobre elas. A temporada é pequena, não deixe de conferir!

 

Roteiro:

O Eterno Retorno. Texto: Samir Yazbek. Direção e trilha sonora: Sérgio Ferrara. Assistência de direção: Angélica Prieto. Elenco: Carlos Palma, Gustavo Haddad, Helô Cintra Castilho, Luciano Gatti e Patricia Gasppar. Figurinos: Kleber Montanheiro. Cenário: Telumi Hellen. Iluminação: Aline Santini. Fotografia: Lenise Pinheiro. Direção de produção: Elza Costa/Brancalyone Produções. Coordenação geral: Edinho Rodrigues.  Realização: Sesc São Paulo

Serviço:
SESC 24 de Maio (245 lugares), Rua 24 de Maio, 109, tel.11 3350-6300. Horários: sexta e sábado às 21h, domingo às 18h (sessões duplas- sextas, dias 16, 23 e 30/11, às 18h e 21h). Ingressos: R$ 40, R$ 20 e R$ 12. Duração: 70 minutos. Classificação: 14 anos. Temporada: até 2 de dezembro.
Leituras Dramáticas: sábados, às 14h até 1º/12.
Debate: A dramaturgia Contemporânea Brasileira: 1º /12, às 16h.
Oficina: Iniciação à Dramaturgia: dias 16, 23 e 30/11, das 14h às 17h.
(três atividades gratuitas)

* Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

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