RESENHA: DELICADA E CONFLITUOSA RELAÇÃO ENTRE PAI E FILHO

SÃO PAULO – Helio Sussekind em Ponto Morto (peça inédita do jornalista e escritor carioca) faz um recorte na vida de um pai, que tem um filho autista: em dois dias e duas noites, Humpty, interpretado por Luciano Chirolli, e Dumpty, vivido por Marat Descartes, perambulam a esmo (da floresta para a cidade e voltam para a floresta) e escancaram uma relação que é um misto de amor e afeto com repulsa e aversão; eles necessitam descobrir uma nova maneira de convivência. Com direção dos atores Denise Weinberg e Camilo Bevilacqua, o espetáculo é denso e incisivo, mas com tratamento lúdico e poético.  

Ao entrar o público já se depara com aqueles dois homens andando por todo o espaço circular da sala, tendo no centro do palco alguns troncos de madeira. Aos poucos, com os atores só caminhando, os espectadores percebem que o homem mais velho, de uns 70 anos, sempre caminha na frente e para esperando pelo filho, que aparenta ter 40 anos, mas tem atitude e reações de uma criança. Com o início da trama, este perfil dos personagens só se consolida e a relação deles passa a ficar evidente. Num recorte de dois dias na vida daqueles homens, percebe-se que Humpty ao mesmo tempo em que é cuidadoso e amoroso mostra-se irritado e principalmente arredio àquele filho. Já Dumpty não para de falar e fazer perguntas e também demonstra sentimentos conflitantes, vai do amor ao ódio em segundos. Uma relação de total interdependência.

“Li o texto e me interessei pela história, pela carpintaria teatral que Helio Sussekind domina muito bem. Acho que o bom teatro é uma história bem contada. E esta é a de um amor tão atribulado, de uma relação de amor e repulsa entre dois indivíduos, ainda mais sendo pai e filho, que afeta qualquer pessoa que assiste a peça”, esclarece Denise Weinberg.

Mesmo tratando de temas tão duros e complexos — autismo, intolerância, exclusão social e preconceito —, o espetáculo é poético e lúdico (há passagens em que o filho ingenuamente emociona e alegra, provocando boas risadas). Destaque para o cenário de Chris Aizner, somente uns troncos de árvore cortados, que se compõe harmonicamente com a iluminação de Wagner Pinto e a impressão que se tem é de uma densa floresta com as devidas passagens de tempo (mudança de luz). A direção (dois atores dirigindo dois colegas) é que permite a integração e a perfeita sintonia em cena de Luciano Chirolli e Marat Descartes. No entanto, a composição de Marat para Dumpty é excepcional, comovente — nos cumprimentos finais em que eles já se despiram dos personagens, fiquei emocionado com a entrega de Marat ao papel. Restam poucas apresentações, não perca!

“Ponto Morto” faz curta temporada no Tuca Arena. Foto: Joao Caldas Fº

Roteiro:
Ponto Morto. Texto: Helio Sussekind. Direção: Camilo Bevilacqua e Denise Weinberg. Elenco: Luciano Chirolli  e Marat Descartes. Cenário: Chris Aizner. Iluminação: Wagner Pinto. Figurino: Helena Afonso. Trilha sonora: Tunica Teixeira. Fotografia: João Caldas. Produção: Marcella Guttmann. Realização: Fixação Marketing Cultural

Serviço:
Teatro Tucarena (300 lugares), Rua Monte Alegre, 1024, tel. 11 3670-8455/8456. Horários: sexta e sábado às 21h e domingo às 18h. Ingressos: sexta R$ 70, sábado e domingo R$ 80. Bilheteria: terça a domingo das 14h às 20h. Venda; tel: 11 4003-1212 e www.ingressorapido.com.br. Duração: 60 min. Classificação: 12 anos. Temporada: até 02 de abril.

Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

 

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