Resenha: Denise Fraga mescla histórias reais e ficção em monólogo emocionante

São Paulo – Um dos significados de empatia é a aptidão para se identificar com o outro, sentindo o que ele sente, aprendendo da maneira como ele aprende. Não há definição melhor do que empatia para o espetáculo Eu de Você. O solo de Denise Fraga reúne tanto histórias reais enviadas pelo público como trechos de obras de ficção. O texto final, assinado pela atriz, pelo diretor Luiz Villaça e por Rafael Gomes, compila estas histórias com uma extensa pesquisa e procura fazer ligações entre a vida comum e a arte.
“A peça foi construída na sala de ensaio. Nossa matéria prima são as histórias reais costuradas com pérolas da literatura, música, imagens e poesia. Contando histórias reais, rompendo a fronteira entre palco e plateia, fato e ficção, pedaços de vida embalados pela arte, pretendendo ampliar o nosso Teatro para uma real experiência de empatia”, afirma Denise Fraga.

Seguindo a proposta cênica do espetáculo — é urgente ver o outro, olhar pelo olhar do outro, ser eu de você —, Denise entra pela plateia e começa conversando com os espectadores, de forma informal e muito próxima de cada um deles. As primeiras histórias parecem ser do cotidiano da atriz, da sua infância, de seus primeiros professores, de seu pai. E sem que haja qualquer interrupção da narrativa, surgem experiências de vida de outras pessoas, trechos de poemas ou citações de músicas que conectam todos. É o caso da canção É o amor, de Zezé Di Camargo, já interpretada por diversos artistas, mas que Denise traz uma dramaticidade particular, repetindo versos e enfatizando algumas palavras, como o tiro, que ganha conotações diversas.

É o amor…/
Que faz eu pensar em você/
E esquecer de mim/
É o amor/
Que veio como um tiro certo
No meu coração”…

Ampliando ainda mais a proposta de quebra da relação palco plateia, a atriz desce novamente para junto das pessoas, fala olho no olho, criando uma grande cumplicidade. E sem constranger ninguém, pede a participação efetiva do público: entrega a um espectador, por exemplo, um bilhete com depoimento enviado e pede que leia. Depois, de volta ao palco, ela começa outra fala de uma mulher negra, da periferia e interrompe. Diz que nunca terá a dimensão de vida daquela mulher, são experiências de vida muito diferentes. Mas prova que na arte tudo é possível: a atriz incorpora o discurso daquela mulher com a maior verdade!

Com o palco todo vazio e rodeado de telões em branco, Denise se movimenta muito para criar as situações dos personagens que vive. E nestes telões são projetadas as imagens de muitas das pessoas que enviaram suas histórias, elas passam a dividir a cena com Denise.  O desfecho do espetáculo é surpreendente e novamente a atriz exige a participação da plateia e faz com que alguém suba ao palco para auxiliá-la a terminar. Antes, porém, cada espectador olha para quem está ao seu lado, Denise incita esta conexão.

Além da dramaturgia envolvente e de grande empatia, a direção imprime dinamismo e agilidade às cenas. A iluminação de Wagner Antônio é outro elemento que contribui para que a narrativa flua, assim como a participação essencial das musicistas durante todo o espetáculo. Destaque ainda para o belo figurino de Simone Mina. No entanto Eu de Você só atinge as pessoas graças à performance de Denise Fraga: é impressionante como a atriz consegue de uma frase para outra levar o público do riso solto às lágrimas. Sem dizer de seu carisma e de seu excepcional talento.

Roteiro:
Eu de Você
. Idealização e criação: Denise Fraga, José Maria e Luiz Villaça. Direção: Luiz Villaça. Elenco: Denise Fraga. Musicistas: Fernanda Maia, Clara Bastos e Priscila Brigante. Dramaturgia: Cassia Conti, André Dib, Denise Fraga, Fernanda Maia, Luiz Villaça e Rafael Gomes. Texto final: Rafael Gomes, Denise Fraga e Luiz Villaça. Direção musical: Fernanda Maia. Direção de movimento: Kenia Dias. Direção de arte e figurino: Simone Mina. Iluminação: Wagner Antônio. Produção: José Maria. Produtora executiva Adriana Tavares. Fotografia: Cacá Bernardes. Realização: Secretaria Especial da Cultura, Ministério da Cidadania e Governo Federal.
Serviço:
Teatro Vivo (274 lugares), Av. Dr. Chucri Zaidan, 2460, tel. 11 3279-1520. Horários: sexta às 20h, sábado às 21h e domingo às 19h. Ingressos: sexta R$ 50, sábado e domingo R$ 70. Bilheteria: de terça a domingo a partir das 14h. Venda: sympla.com.br. Duração: 80 min. Classificação: 12 anos. Temporada: até 15 de dezembro.

* Maurício Mellone publicou o texto no 
www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

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