RESENHA: DENISE FRAGA VIVE NO PALCO O CIENTISTA GALILEU GALILEI

Maurício Mellone * (redacao@aplausobrasil.com)

GALILEU GALILEI
GALILEU GALILEI

SÃO PAULO – Num momento em que o mundo ainda vive com conflitos político-religiosos, que a intolerância entre as pessoas está cada vez mais viva e pensamentos fundamentalistas estão à solta, nada mais apropriado do que se valer do clássico dramaturgo alemão Bertolt Brecht e sua peça sobre o revolucionário cientista italiano do século XVII, Galileu Galilei. Exatamente com esta proposta que a atriz Denise Fraga e a diretora Cibele Forjaz acabam de estrear, no Teatro TUCA, o espetáculo Galileu Galilei, baseado no peça A Vida de Galileu, de Brecht. Com bom-humor e de forma clara e objetiva (elementos centrais do teatro bretchtiniano), a montagem traz à tona a trajetória de vida do cientista italiano, que conseguiu provar matematicamente a tese de Copérnico de que o Sol é o centro do universo e a Terra gira ao seu redor, ao contrário da tese vigente até então de que a Terra era o centro de tudo. Porém, Galileu sofreu violenta oposição, sendo julgado pela Inquisição; para salvar a vida e continuar seus estudos, ele negou sua tese.

 

GALILEU GALILEI
GALILEU GALILEI

Desde a entrada na sala de espetáculo o público já é recepcionado pela trupe de 10 atores, capitaneada por Denise Fraga que interpreta Galileu. Com um cenário de poucos elementos e uma arena que avança até a plateia, a montagem utiliza de recursos, como placas, letreiros, jogral e canções, para contar de forma didática e esclarecedora a vida e obra de Galileu, que é mostrado como qualquer um de nós — um homem que adora comer, escova os dentes, tem medo da truculência da Santa Inquisição, sente ciúme da filha e gosta de mulher —  e nunca como um herói intangível.

“Brecht se apropria da situação histórica de Galileu e, com seu habitual humor e ironia, privilegia a vida à história, o homem ao herói. Seu Galileu Galilei nos faz acreditar que a história do mundo foi construída por homens que tinham suas fraquezas e suas dúvidas misturadas a seus atos de coragem e clareza”, argumenta Denise Fraga.

A montagem também valoriza outro fundamento do teatro de Brecht, o distanciamento do público do que é encenado no palco: assumindo a função de narrador, Denise em diversas passagens se dirige diretamente para a plateia e tira a peruca que simboliza o personagem; e para voltar ao papel, recompõe o figurino (coloca enchimento na barriga, põe a peruca e acerta a postura máscula e o envelhecimento de Galileu).
Com uma proposta cênica despojada, alegre e elucidativa, Galileu Galilei proporciona ao espectador, que desconhece a importância do cientista que introduziu novo paradigma para a evolução da Humanidade, que saia do espetáculo com uma visão global sobre a vida de Galileu. A criativa direção de Cibele, a iluminação de Wagner Antônio que pontua a narração (o tom vermelho para o julgamento da Inquisição merece ser ressaltado), a praticidade do cenário de Márcio Medina, a empolgante trilha sonora de Théo Werneck e Lincoln Antônio e os belos figurinos e adereços de Marina Reis dão sustentação para a grandiosidade do espetáculo.

GALILEU GALILEI
GALILEU GALILEI

O destaque da montagem fica mesmo para a coesão e perfeita sintonia dos dez atores, que interpretam vários papéis. Para dar vida a um personagem masculino, de diversas nuances de personalidade, Denise Fraga imprime verdade e tem grande empatia com o público. Outros destaques ficam para Ary França (o cachorro que ele faz é hilário), Lúcia Romano que emociona como a filha do cientista e Rodrigo Pandolfo, que com seu talento mostra o crescimento de Andreas, desde o garoto curioso que auxilia Galileu até a fase adulta, em que se opõe à decisão do mestre de negar suas teorias, mas depois é o propagador da tese de Galileu.
Galileu Galilei traz todos os ingredientes para repetir o sucesso de A Alma Boa de Setsuan, peça de Brecht que Denise e sua equipe encenaram em 2008, com mais de 200 mil espectadores pelo país.

* Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

 

Roteiro:
Galileu Galilei. Texto: Bertolt Brecht. Direção artística: Cibele Forjaz. Adaptação/dramaturgia: Christine Röhrig, Cibele Forjaz, Maristela Chelala e Denise Fraga. Elenco: Denise Fraga, Ary França, Rodrigo Pandolfo, Lúcia Romano, Maristela Chelala, Vanderlei Bernardino, Jackie Obrigon, Luís Mármora, Silvio Restiffe e Théo Werneck. Cenografia: Márcio Medina. Trilha sonora: Lincoln Antônio e Théo Werneck.  Iluminação: Wagner Antonio. Figurino: Marina Reis.  Visagismo: Simone Batata. Fotografia: João Caldas.  Produção executiva: Lili Almeida. Direção de produção: José Maria. Realização: NIA Teatro
Serviço:
Teatro Tuca (672 lugares), Rua Monte Alegre, 1024, tel. 11 3670-8455. Horários: sexta e sábado às 21h e domingo às 19h. Ingressos: sexta R$ 50, sábado e domingo R$ 70. Bilheteria: de terça a domingo a partir das 14h. Não se aceita cheque; aceitam-se todos os cartões.  Vendas: www.ingressorapido.com.br e 4003-1212. Acesso para deficiente, ar condicionado. Duração: 140 min. Classificação: 12 anos. Temporada: até 30 de agosto.