RESENHA: DUAS MULHERES VIVEM ENTRE O AFETO E A REPULSA

 

SÃO PAULO – Lulu Pavarin e Sabrina Greve dão vida às enigmáticas personagens da nova peça da paulistana Michelle Ferreira, Não somos amigas. Com direção de Maria Maya, que contou com Cynthia Falabella como sua assistente, a trama revela a conflituosa relação de duas mulheres, que num pequeno apartamento próximo ao aeroporto — o ruído dos aviões é mais um elemento aflitivo — vivem entre o amor e o ódio, a atração afetiva e o sentimento de repugnância. O espectador passa a maior parte do espetáculo sem saber que relação elas mantém ou o porquê daquele encontro. Este jogo dramático prende a atenção de todos até a última cena.

O texto tem proximidade com duas montagens recentes encenadas na cidade, O Bosque Soturno e Ponto Morto, em que dois personagens vivem em permanente conflitos. Se nas outras duas as relações são nítidas — na primeira o duelo é entre dois irmãos e na segunda entre pai e filho —, nesta o enigma permanece quase até o final: quem são aquelas mulheres e qual a razão daquele encontro.

Elas poderiam ser simplesmente amigas, mas também amantes ou até parentes. Para a diretora, o importante não é perceber qual a relação entre elas, mas como tudo se estabelece, podendo ser tanto um relacionamento familiar como simples amizade.
No pequeno e aconchegante espaço cênico, o público entra e as duas mulheres já estão em cena: uma de pé, ansiosa tentando tirar um anel do dedo e a outra paralisada e com o olhar fixo para frente. Com o início, elas revelam como se relacionam, neste misto de carinho e ojeriza.

“O espetáculo fala da vida e da morte, emociona o público e o leva à reflexão. É um tratado de memória, de conflito e de amor, com o qual é possível dialogar com as sensações de quem assiste”, diz Michelle Ferreira.

Além de um texto recheado de enigmas (o espectador não desvia a atenção da trama) e a direção de Maria Maya que enfatiza a nebulosidade entre as personagens, a montagem é muito cuidadosa, com a sonoplastia (Aline Meyer) e a iluminação (Aline Santini) bem conectadas e um belíssimo figurino de Tatiana Brescia. No entanto o grande destaque fica para a simbiose em cena de Lulu e Sabrina: com frases entrecortadas, num ritmo alucinante das falas, as atrizes passam a dimensão, a profundidade e a conexão exata daquelas mulheres.

Uma curiosidade: a ficha técnica da peça é praticamente composta apenas de mulheres, o que talvez tenha redimensionado a proposta da dramaturga, de esmiuçar o universo feminino nos dias atuais.

Roteiro:
Não somos amigas. Texto: Michelle Ferreira. Direção: Maria Maya. Diretora assistente: Cynthia Falabella. Elenco: Lulu Pavarin e Sabrina Greve. Figurino: Tatiana Brescia. Desenho de luz: Aline Santini. Sonoplastia: Aline Meyer. Cenografia e design gráfico: Amanda Vieira. Fotografia: Ligia Jardim. Produção Executiva: Fernanda Moura e Renata Araújo. Idealização e Direção de Produção: Lulu Pavarin. 

 

Serviço:
Sesc Consolação, Espaço Beta (50 lugares), R. Dr. Vila Nova, 245, tel. (11) 3234-3000. Horários: segunda e terça às 20h.  Ingressos: R$ 20, R$ 10 (estudante, servidor de escola pública, +60 anos, aposentado e pessoa com deficiência) e R$ 6 (trabalhador no comércio de bens, serviços e turismo matriculado no Sesc e dependentes). Duração: 60 minutos. Classificação: 14 anos. Temporada: até 18 de abril.

Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil