RESENHA: DUAS PEÇAS DE SAMIR YAZBEK DISCUTEM O RACISMO NO PAÍS

Maurício Mellone * (redacao@aplausobrasil.com)

Brasil: o Futuro que Nunca ChegaSÃO PAULO – Com praticamente o mesmo elenco da Companhia Teatral Arnesto nos Convidou, duas peças escritas e dirigidas por Samir Yazbek, apresentadas em dias alternados, propõem uma reflexão sobre o racismo no Brasil, desde o Império até os nossos dias.

Em Brasil: o futuro que nunca chega – Princesa Isabel a trama se passa exatamente no dia em que a filha do imperador assina a Lei Áurea que libertou os escravos. No entanto, Isabel, vivida por Gabriela Flores, é questionada por José, um escravo alforriado interpretado por Rogério Brito, sobre as condições de desamparo dos negros depois da escravidão e como será a integração deles à sociedade. Já em Brasil: o futuro que nunca chega – D.Pedro II a trama acontece nos dias atuais com um repórter de TV, interpretado por Eduardo Mossri, se indagando sobre o racismo e a intolerância da sociedade brasileira contemporânea, tendo como foco a visita de D. Pedro II, vivido por Helio Cicero, ao Líbano em 1876.

A abertura do espetáculo que se passa no dia 13 de maio de 1888 é com a atriz Janette Santiago, que interpreta a mãe já falecida de José, o escravo alforriado, apresentando uma coreografia afro de grande impacto. A sequência é com a Princesa Isabel ansiosa com os rumores sobre a Lei Áurea que ela irá assinar naquele dia. O embate se dá com ela e seu marido, o Conde d’Eu (Cicero), que tenta dissuadi-la da ideia, dizendo que ao assinar a lei, o império estará com os dias contados. No entanto, Isabel é questionada veementemente por José, que aponta as relações promíscuas entre o Império e os grandes latifundiários e como os negros serão totalmente abandonados e não terão condições reais de integração à sociedade após a escravidão.

Já a outra peça traz a discussão para os dias atuais, refletindo sobre o racismo, a intolerância e as diferenças que foram dadas para as comunidades de imigrantes e negadas aos africanos, que foram trazidos de forma violenta ao país e depois escravizados. O mote é a visita de D. Pedro II ao Líbano e tudo é apresentado pela ótica do repórter de origem libanesa, que conduz a trama e é questionado pelo cinegrafista (Rogério Brito), que reforça as condições injustas impostas aos negros desde que chegaram ao Brasil.

“Inspiradas na passagem do Império à República, as duas peças examinam como as estruturas políticas e sociais que determinaram a escravidão no país são as mesmas responsáveis, no século XXI, pela desigualdade social brasileira”, argumenta o autor e diretor Samir Yazbek.

Brasil: o Futuro que Nunca ChegaO projeto de Yazbek ganha importância pelo caráter educativo de rever momentos cruciais da história brasileira, principalmente num momento em que o mundo passa por grandes movimentos migratórios, com refugiados buscando abrigos em países longínquos e tendo de lidar com todo o tipo de preconceito e intolerância. Além do vigor da dramaturgia, outros destaques do projeto Brasil: o futuro que nunca chega são os cenários criativos de André Cortez (principalmente em D. Pedro II, com a estrutura móvel contribuindo para o jogo cênico de passagem do tempo), e as emocionantes interpretações de Rogério Brito, Janette Santiago (que também assina a preparação corporal), Eduardo Mossri e Helio Cicero, que divide a direção com Yazbek.

* Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

Roteiro:

Brasil: o futuro que nunca chega. Texto e direção: Samir Yazbek. Codireção e preparação de atores: Helio Cicero. Cenografia: André Cortez. Figurino: Anne Cerutti. Iluminação: Domingos Quintiliano. Trilha sonora: Gregory Slivar. Preparação corporal: Janette Santiago. Fotografia: Heloísa Bortz. Produção executiva: Vanessa Campanari.

Princesa Isabel – Elenco: Gabriela Flores, Rogério Brito, Helio Cicero e Janette Santiago. Participação: Fernando Trauer e Carla Laiene.

  1. Pedro II Elenco: Helio Cicero, Eduardo Mossri, Rogério Brito, Gabriela Flores e Henrique Zanoni. Participação: Fernando Trauer e Carla Laiene.

Serviço:
SESC Consolação, Teatro Anchieta (280 lugares), Rua Dr. Vila Nova, 245, tel: (11) 3234-3000. Horários: Princesa Isabel – quinta e sábado às 21 horas; D. Pedro II – sexta às 21 horas e domingo às 18 horas. Ingressos: R$ 40,00, R$ 20,00 (estudante, servidor de escola pública, +60 anos, aposentado e pessoa com deficiência) e R$ 12,00 (credencial plena). Venda pelo portal SESC e nas bilheterias das unidades a partir das 17h30. Duração: 70 minutos. Classificação: 12 anos. Temporada: até 10 de julho.

 

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