RESENHA: EM MONTAGEM DESPOJADA, SOLO DE ANDREA BELTRÃO REVISITA TRAGÉDIA DE SÓFOCLES

SÃO PAULO – Depois de apresentação no último Festival de Curitiba e de temporada de sucesso no Rio, Andrea Beltrão está na cidade, infelizmente por pouco tempo, só até o dia 18 de junho.  Ela encarna sozinha em cena a tragédia grega de Sófocles, Antígona. Com tradução de Millôr Fernandes e direção de Amir Haddad, a atriz — que assina a dramaturgia em parceria com o diretor—, já está no palco com a entrada do público e cumprimenta a todos. Esta é uma das características desta montagem despojada: Andrea quebra a quarta parede durante todo o espetáculo e é didática ao se referir diretamente à plateia para contar a trajetória de vida da última filha de Édipo e Jocasta. Com o palco vazio, tendo ao fundo uma extensa árvore genealógica da cidade grega de Tebas, Andrea em apenas 60 minutos revive toda a trágica vida dos descendentes do rei Laio.

Por que os clássicos são sempre revisitados?  Na certa por traduzirem muito da alma humana, dos sofrimentos, angústias e anseios de todos nós. Millôr Fernandes é enfático ao falar de Antígona:

“Quem sabe um dia poderemos achar esta peça pré-histórica, sua figura central sem sentido. Mas não. A personalidade quase viril da última filha de Laio está tão viva quanto estava há 2 mil e 400 anos”.

E, realmente, em plena segunda década do século XXI, a tragédia de Sófocles ainda nos ajuda a refletir sobre o poder, traições políticas, atitudes autoritárias, desmandos e a violência desmedida. Algo parecido com a realidade do Brasil dos dias atuais? Infelizmente não podemos negar a profecia de Millôr!

Com a intenção de relatar o último drama da vida de Antígona — ter sido condenada por desobedecer as ordens de seu tio Creonte, Rei de Tebas, que determinara que o irmão dela, Polinice, não tivesse um enterro conforme as tradições —, a atriz retoma a história de formação de Tebas. Daí a importância da grande árvore genealógica disposta no palco: Andrea faz as conexões entre as gerações e em seguida assume os papéis da trama. Com um único elemento (uma capa, um sapato ou um gesto específico), a atriz incorpora os personagens e o público acompanha toda a trajetória trágica de Édipo, que sem saber matou Laio, seu pai, e em seguida casa-se com a mãe, tendo quatro filhos (dois homens e duas mulheres), que eram seus irmãos.

Num ritmo ágil, a atriz vai e volta na história e completa todo o painel da vida de Tebas, deixando até aquele espectador pouco informado da história da Grécia antiga totalmente integrado à tragédia que está sendo narrada.

Sem dúvida uma montagem enxuta, concisa, que fala diretamente ao público de hoje, mesmo se referindo a uma história escrita há mais de 2 mil e 400 anos! E esta empatia com a plateia só de dá pelo talento de Andrea Beltrão, que sabe conduzir perfeitamente a trama, indo aos personagens e voltando deles com uma naturalidade impressionante, além da dosagem correta entre o drama, a fina comédia e o trágico pleno. Um dos grandes espetáculos do ano, pena que cumprindo uma temporada minúscula em São Paulo.

Que a produção consiga novos espaços para se apresentar, os paulistanos merecem um período maior de temporada. Fica aqui minha torcida.   

Roteiro:
Antígona. Texto: Sófocles. Tradução: Millôr Fernandes. Dramaturgia: Amir Haddad e Andrea Beltrão. Direção: Amir Haddad. Elenco: Andrea Beltrão.  Iluminação: Aurélio de Simoni. Figurino: Antônio Medeiros. Direção de movimento: Marina Salomon.  Cenário e projeto gráfico: Fabio Arruda e Rodrigo Bleque. Fotografia: Guga Melgar e Matheus José Maria. Produção: Boa Vida Produções.

Serviço:
 SESC Consolação, Teatro Anchieta (280 lugares), Rua Dr. Vila Nova, 245, tel. 11-3234 3000. Horários: sexta e sábado às 21h e domingos às 18h. Ingressos: de R$ 50 a R$ 15. Duração: 60 min. Classificação:  14 anos. Temporada: até 18 de junho

Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.