RESENHA: ERIC LENATE RECRIA O UNIVERSO SEM ESPERANÇA DE SAMUEL BECKETT

Maurício Mellone * (redacao@aplausobrasil.com.br)

Fim de Partida em cartaz no Sesc Pinheiros. Foto: divulgação
Fim de Partida em cartaz no Sesc Pinheiros. Foto: divulgação

SÃO PAULO – Mais uma vez vale a máxima de que os clássicos são sempre atuais, eternos. Num mundo mergulhado em guerras, com êxodo de mais de 65 milhões de pessoas fugindo de seus países (em função de conflitos e da miséria) e com a intolerância, o fanatismo e todo tipo de preconceito grassando pela sociedade contemporânea nada melhor do que Samuel Beckett, um dos escritores mais importantes do século XX e considerado pelos críticos como um ícone do teatro do absurdo, para ajudar a reflexão sobre nosso cotidiano e a instigar a reavaliação de valores e princípios.

Em Fim de Partida o espectador se depara com quatro personagens enclausurados num abrigo, vivendo dentro  de latões, num ambiente escuro e lúgubre em que questionam a condição humana e o sentido da vida.

“A peça fala sobre conflitos humanos e, enquanto a gente tiver problemas éticos, de valores e comportamentais apresentados nesse texto, Beckett será atual. Ele constrói seu texto com uma arquitetura linguística tão fantástica, que essa estrutura não envelhece jamais”, argumenta Eric Lenate.
Além das condições inóspitas, os personagens estão praticamente enlatados e inertes: Hann (Lenate) é um artista fracassado, está cego e preso a uma cadeira de rodas; seu  ajudante Clov, vivido por Rubens Caribé, sofre de uma doença que o impede de sentar e Nagg e Nell (Ricardo Grasson, Miriam Rinaldi), pais de Hann, também são mutilados e vivem dentro de latões. Estão à míngua, exclusos, sem luz, sem alimento, sem esperança, sem poesia, sem vida. A eles resta o questionamento da existência humana.
Fiel ao universo de Beckett, a montagem provoca o espectador, deixando-o também enclausurado e reflexivo diante daquela realidade tão crua e cruel. No programa da peça, o diretor diz que o dramaturgo nos alerta para o absurdo que somos nós:
“Sem oferecer respostas nem atenuantes diante de nossa catástrofe, Beckett transforma seus personagens em ruínas, construindo em suas peças a expressão mais fiel de um mundo no qual restaria apenas esperar por Godot, pela morte ou pelo fim da partida. Talvez por isso ele permaneça atual, já que suas obras continuam exigindo que os espectadores tomem consciência da catástrofe, do mundo nos dias de hoje”, diz o diretor.
Assim como o dramaturgo irlandês, a proposta cênica também radicaliza: o espetáculo termina e a plateia se sente órfã, já que os atores não voltam para agradecer os aplausos finais (o estranhamento, intencional, é uma realidade, saí incomodado com a crueza da darmaturgia de Beckett). Destaque para a iluminação (Aline Santini), o figurino (Rosângela Ribeiro), cenário e adereços (assinados pelo diretor), que sustentam a proposta cênica claustrofóbica e opressiva da montagem. A narrativa se complementa com a trilha, criada e executada ao vivo por L.P. Daniel. A coesão e sintonia dos atores em cena também devem ser ressaltadas, com destaque para a atuação de Rubens Caribé e Eric Lenate. Espetáculo de impacto, provocador e reflexivo.

* Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

Roteiro:
Fim de Partida
. Texto: Samuel Beckett. Tradução: Fabio de Souza Andrade. Direção, cenografia e adereços: Eric Lenate. Elenco: Rubens Caribé, Ricardo Grasson, Miriam Rinaldi, Eric Lenate e L.P. Daniel. Figurino e adereços: Rosângela Ribeiro. Iluminação e adereços: Aline Santini. Videografia: Laerte Péssimos e Eric Lenate. Trilha sonora, sonoplastia e engenharia de som: L.P. Daniel. Fotos e registro documental: Leekyung Kim. Direção de produção: Ricardo Grasson e Fernando Fado. Produção executiva: Eric Lenate.
Serviço:
Auditório SESC Pinehrios(101 lugares) Rua Paes Leme, 195 , tel.: (11) 3095-9400. Horários: quinta a sábado às 20h30. Ingressos: R$ 25,00 (inteira); R$ 12,50 (meia: estudante, servidor de escola pública, +60 anos, aposentado e pessoa com deficiência); R$ 7,50 (trabalhador no comércio, serviços e matriculado no Sesc e dependentes). Bilheteria: de terça a sábado das 10h às 21h e domingos e feriados das 10h às 18 h (ingressos à venda em todas as unidades do SESC). Duração: 80 minutos. Classificação: 14 anos. Temporada: até 2 de julho.

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