Resenha: espetáculo da Cia LaMínima mistura teatro, circo e humor, numa reflexão  sobre a guerra

 

SÃO PAULO – Uma reflexão sobre o horror da guerra por intermédio do olhar do palhaço. Este o mote central do novo espetáculo da Cia LaMínima, Ordinários, que mistura teatro, circo, humor e uma dose de crítica às estratégias bélicas. Com direção de Alvaro Assad, a trama gira em torno do cotidiano de três soldados, vividos por Fernando Paz, Fernando Sampaio e Filipe Bregantim, que esperam pela a ordem de entrar em ação para libertarem o comandante, capturado pelo inimigo. Com temperamentos completamente opostos, os soldados, enquanto esperam, são obrigados a infindáveis treinamentos. E durante a missão, segredos de cada um deles vêm à tona.

O espetáculo começa de forma tradicional, com a abertura da cortina — hoje em dia raramente as peças começam assim. E o que se vê em seguida é o palco totalmente vazio, somente com os três soldados/palhaços a postos com seus equipamentos de guerra: capacete, fuzil/espingarda e mala com utensílios para acampamento. Muito próximo da arte circense: o próprio ator/palhaço é a ação, o jogo de cena.

“Três palhaços e um mote. Surgem para vigiar/combater/invadir aquele espaço. Possibilidade cênica ímpar de planos visuais, relação entre os atores, relação entre os atores e partes de seu corpo e relação entre atores e objetos (sejam figurinos, adereços, instrumentos, truques) buscam mostrar e fornecer ao público passo a passo peças de um quebra-cabeça que sempre esteve no palco desde antes da cortina se abrir”, diz Alvaro Assad definindo a montagem.

Com temperamentos opostos — um é o valentão (Bregantim), o outro, o atrapalhado (Paz) e o terceiro, o covarde (Sampaio) que não vê a hora de se livrar de tudo aquilo — eles estão naquele local (um lugar sem referência alguma) somente à espera de serem convocados para a missão. Enquanto isso eles são obrigados a treinamentos intermináveis e sem sentido. No entanto, quando a ordem chega para darem início à missão (resgatar o comandante), eles partem se muita convicção. E durante a caminhada inóspita, segredos de cada um deles vêm à tona, além de descobrirem o verdadeiro caráter do superior que eles iriam salvar.

O público fica preso à ação cênica desde o início, graças ao carisma que o palhaço exerce sobre todos nós: como são tipos diferentes e de personalidades distintas a identificação é ainda maior. Mas tudo isso acontece mesmo devido ao talento e graça de Fernando Sampaio, Fernando Paz e Filipe Bregantim, que estão em perfeita sintonia. Destaque ainda para o roteiro (assinado por Newton Moreno, o diretor e os atores), para a encenação criativa de Alvaro Assad, a iluminação de Marcel Alani que com sutileza faz a passagem de tempo de forma lúdica e para a trilha sonora de Marcelo Pellegrini executada com graça pelos próprios atores.

Roteiro:
Ordinários
. Concepção: Alvaro Assad, Fernando Paz, Fernando Sampaio e Filipe Bregantim. Roteiro: Newton Moreno, Alvaro Assad e LaMínima. Direção e preparação mímica: Alvaro Assad. Elenco: Fernando Paz, Fernando Sampaio, Filipe Bregantim. Direção musical e música original: Marcelo Pellegrini. Iluminação: Marcel Alani. Figurino e visagismo: Carol Badra. Cenografia: LaMínima. Adereços: Dario França, Juciê Batista e Reticências. Fotografia: Matheus José Maria. Direção de produção: Luciana Lima. Produção: Chai Rodrigues. Supervisão geral: Fernando Sampaio.
Serviço:
Teatro Vivo (274 lugares), Av. Dr. Chucri Zaidan, 2.460, tel. 11 3279-1520. Horários: quarta e quinta às 20h. Ingressos: R$ 40. Duração: 70 min. Classificação: 14 anos. Temporada: até 12 de dezembro.

* Maurício Mellone publicou o texto no 
www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil


 

 

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