RESENHA: ESPETÁCULO DE AIMAR LABAKI TRADUZ O ROMANTISMO DE GIACOMO LEOPARDI

SÃO PAULO – A peça Zibaldone, do poeta italiano do século XIX Giacomo Leopardi, reúne textos que versam sobre a vida, o amor, o poder e a morte. O espetáculo de Aimar Labaki, responsável pela concepção, tradução, dramaturgia e direção, coloca em cena somente dois atores, Adriana Londoño e Clovys Torres que através da dança, performances e os textos de Leopardi ao lado de poemas de outros autores (como Augusto de Campos e Cazuza) traduzem as inquietações do Homem do século XXI.

“Leopardi não é um pretexto e nem o único em cena. O que queremos é trazê-lo para hoje (sem alterar suas palavras), torná-lo interlocutor da cena e do espectador contemporâneos. Deixar que suas palavras fluam pelo corpo do ator para poder dialogar com a vida dos espectadores”, explica o diretor.

“Uma casa no ar/
Suspensa por cordas/
A uma estrela”

Por este lindo poema acima dá para perceber como o espetáculo enfatiza a palavra, tanto que não há trilha sonora e a iluminação é básica. Ao entrar na sala, o público é convidado a subir ao palco, ficando em círculo, ao redor do espaço cênico, em que há uma muralha de livros e o ator está deitado lendo. Ouve-se uma espécie de mantra e aos poucos o público percebe que é a atriz que recita poemas de Leopardi em italiano. O ator começa a dizer os textos e logo derruba todos os livros para que ambos possam traduzir o universo deste grande poeta italiano pouco conhecido entre nós. Giacomo Leopardi compôs 41 poemas, uma extensa correspondência e Zibaldone, um misto de diário e anotações filosóficas com mais de 4 mil páginas.

“Buscamos um contraponto entre a ideia de crítica à modernidade presente na obra de Leopardi e a realidade de hoje. O espetáculo não é um retrato do artista, nem tampouco uma visita à vastidão de sua obra; é a procura da atualidade de sua poética por meio do diálogo com a cena contemporânea no que ela tem de busca de essencialidade no corpo dos atores e na palavra ao mesmo tempo poética e épica da dramaturgia de nossos dias”, diz Labaki.

Além da proximidade com os atores, o espectador é envolvido na poética do espetáculo e até se esquece de que muitos dos poemas foram escritos há tanto tempo.

Adriana Londoño e Clovys Torres estão seguros em cena e passam todas as nuances da poética de Leopardi, da fragilidade romântica ao vigor crítico, do amor à vida ao entendimento da morte.

Outros destaques ficam para a concepção cênica de Labaki e o belo figurino de Fabio Namatame.

Roteiro: 
Zibaldone. Texto: Giacomo Leopardi. Concepção, dramaturgia, tradução, cenografia e direção: Aimar Labaki. Elenco: Adriana Londoño e Clovys Torres. Consultoria literária: Maurício Santana. Produção, cenotécnica e assistência de cenografia: Murilo Carraro. Figurino feminino: Fábio Namatame. Fotografia: Gal Oppido.                                          Serviço:
SP Escola de Teatro/Sede Roosevelt (50 lugares), Pr. Roosevelt, 210, tel. 11 3775.-8600. Horários: sábado às 21h30h, domingo às 19h e segunda às 20h. Ingressos: R$ 40 e R$ 20. Bilheteria: de terça a sábado das 14h às 17h e de quarta a domingo, das 14h até o início do espetáculo. Vendas:  www.ingressorapido.com. Duração: 60 min. Classificação: 10 anos. Temporada: até 01 de maio.

Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

No Comments Yet

Leave a Reply

Seu email não será publicado

*