RESENHA: ESPETÁCULO DE METALINGUAGEM MARCA A ESTREIA DE GRUPO TEATRAL

Maurício Mellone * (redacao@aplausobrasil.com.br)

SÃO PAULO – Formado pelos atores Dani Corrêa, José Alessandre e Roberto Santos, pelo dramaturgo e diretor Wagner Menddes Vasconcelos e pelo músico Yussuf Farham, o Grupo Golpeia de Teatro acaba de lançar seu primeiro trabalho, o espetáculo Projeto Rastejar. Nesta estreia da companhia, a trama é uma metalinguagem, em que três atores e o músico (que executa a trilha ao vivo) começam o ensaio da peça Sinhazinha à espera do diretor, que não aparece.

Na peça ensaiada, há um triângulo amoroso inusitado: em plena época da escravidão, a sinhazinha (Dani) mantém um romance com um escravo (Alessandre), que por sua vez se relaciona, mesmo que de forma rude, com outro escravo (Roberto). Num determinado momento, os atores interrompem o ensaio e só então a plateia se dá conta de que se trata de um grupo de teatro que ensaia uma peça. A interrupção acontece porque a ator que é o vértice do triângulo amoroso, talvez por se sentir tocado com o conteúdo da peça, começa a expressar suas dúvidas e inquietações diante da vida e do teatro; os demais atores aceitam a reflexão e dão início à discussão sobre os valores e funções da profissão e da vida.

Na pequena e aconchegante sala Piscina do Viga (apenas 35 lugares), o público entra e os atores e o músico já estão em cena, fazendo exercícios de alongamento e aquecimento. Depois de tocado o clássico terceiro sinal, a trama começa e a velada relação amorosa vem à tona, até o instante da brusca interrupção e o início da reflexão existencial dos atores.

No programa da peça, o grupo argumenta que o projeto partiu da ação de rastejar como uma atitude de transformação. Assim como os atores precisam se esvaziar para criar os personagens, “o ser humano contemporâneo, mergulhado no excesso de signos e no vazio de significados, talvez tenha que reinventar sua jornada, mais conectado com a sua identidade e mais atento à própria ‘terra’, que pode tanto ser o seu corpo quanto o seu país”.

Com uma cuidadosa preparação corporal (assinada por Andrea Prior e por Roberto Santos), o espetáculo requer muita atenção dos espectadores, que são incitados a refletir sobre questões densas e inquietantes. Que seja o primeiro de incontáveis trabalhos deste novo grupo teatral.

 

* Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

Roteiro:
Projeto Rastejar. Concepção, texto e direção: Wagner Menddes Vasconcelos. Elenco: Dani Corrêa, José Alessandre e Roberto Santos. Preparação corporal: Roberto Santos e Andrea Prior. Trilha sonora original e execução ao vivo: Yussuf Farhan. Figurino: Roberto Santos e Wagner Menddes Vasconcelos. Iluminação: Igor Sane. Arte visual: Alexandre de Paula. Fotografia: Vivian Barborsick. Produção executiva: Wagner Menddes Vasconcelos e José Alessandre. Assistência de produção: Nilton Araújo.

Serviço:
Viga Espaço Cênico, Sala Piscina (35 lugares), Rua Capote Valente, 1323, tel.: 11 3801-1843. Horários: segunda e terça às 21h. Ingressos: R$ 40 e R$ 20. Bilheteria: aberta 1h antes da sessão. Vendas online: www.sympla.com.br. Duração: 60 minutos. Classificação etária: 14 anos. Temporada: até 28 de março.

 

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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