RESENHA: FÁBULA DE JUAN MAYORGA FAZ CRÍTICA À EXISTÊNCIA HUMANA NA TERRA

SÃO PAULO – A temporada teatral paulistana 2017 está chegando ao fim, mas ainda dá tempo para assistir a grandes espetáculos. Até o dia 17, no SESC Ipiranga, você não pode perder A Tartaruga de Darwin, comédia do dramaturgo espanhol Juan Mayorga, que, por meio dos recursos da fábula, provoca uma reflexão crítica e irônica da trajetória humana sobre o planeta Terra. Com direção de Mika Lins, a montagem narra a vida da centenária tartaruga Henriqueta, interpretada por Ana Cecília Costa, que foi objeto de pesquisa do cientista inglês Charles Darwin e evoluiu, tornando-se uma velha senhora. Prestes a completar 200 anos, Henriqueta testemunha os grandes acontecimentos da humanidade — como a revolução industrial, a eclosão de duas guerras mundiais, o surgimento do comunismo e depois seu fracasso com a queda do muro de Berlim — e quer voltar para seu habitat, as Ilhas de Galápagos, onde Darwin a encontrou, pois está desiludida com o Homem.

Ana Cecília pela segunda vez produz e atua em peças de Mayorga (participou ao lado de Marco Antônio Pâmio em 2015 da montagem de A Língua em Pedaços, que voltou a ser encenada até o último dia 9, agora com Joca Andreazza). Se da primeira oportunidade ela vivia Tereza d’Ávila que questionava dogmas da igreja católica, agora a atriz dá vida à tartaruga que se transforma numa mulher e, com ironia, faz duras críticas ao modo como a humanidade vem se conduzindo.

Henriqueta deseja morrer em sua terra natal e para isso precisa de ajuda; ela procura um historiador, vivido por Marcos Suchara, e propõe um acordo: pode contar tudo o que viu e presenciou em troca da viagem de volta. Ele no início acha que ela é louca, mas depois que Henriqueta contesta dados que ele escreveu em sua última obra, o professor aceita ouvi-la. Logo se convence de que Henriqueta é mesmo uma das tartarugas de Darwin e passa a anotar tudo o que ela lhe conta — um olhar bem específico, já que é do chão que ela observa o mundo. Henriqueta passa a morar na casa do professor e a mulher dele, interpretada por Tuna Dwek, sente um misto de ciúme e atração por aquela senhora.

O complicador da trama surge quando Henriqueta passa mal e é levada ao hospital: o médico (Diego Machado) desconfia e o professor acaba confessando a verdade sobre o passado daquela paciente. Ambos começam uma guerra particular pela atenção de Henriqueta, que percebe estar sendo usada por todos e resolve se vingar.

“A vaidade do professor intelectual, a arrogância do médico, a esperteza da mulher do historiador, a incrível capacidade de Henriqueta de observar os humanos e ir se adaptando. A essa crítica humorada de Mayorga buscamos incluir também os artistas e lançar um olhar sobre nós mesmos. A montagem trouxe a oportunidade de rirmos um pouco de nós e de nossas escolhas”, diz Mika Lins.

Por meio do humor e da fábula, o texto de Mayorga provoca no espectador uma reflexão sobre como estamos conduzindo nossa existência no planeta. Sem ser didática ou exagerar com teses, a peça envolve o público que se diverte com tiradas hilárias (Tuna Dwek tem a chance de mostrar toda a sua versatilidade e verve cômica). Com poucos elementos cênicos (destaque para a poltrona que parece um casco de tartaruga), a montagem de Mika dá ênfase tanto ao texto, que mescla com inteligência humor e crítica social, quanto à interpretação; os atores estão seguros e transmitem a alegria pela produção do espetáculo. Programem-se, somente mais dois finais de semana. Tomara que volte em janeiro aos palcos da cidade.

 Roteiro: 
A Tartaruga de Darwin. Texto: Juan Mayorga. Tradução: Ana Cecília Costa e Mika Lins. Direção: Mika Lins. Elenco: Ana Cecília Costa, Marcos Suchara, Tuna Dwek e Diego Machado. Assistente de direção: Daniel Mazzarolo. Cenário e figurino: Cássio Brasil. Iluminação: Wagner Antonio. Trilha sonora: Daniel Maia. Fotografia: Edson Kumasaka. Direção de produção: Dani Angelotti. Realização SESC Ipiranga.

Serviço:
Sesc Ipiranga (200 lugares),Rua Bom Pastor, 822, tel.11 3340.2000. Horários: sexta e sábado às 21h e domingo às 18h. Ingressos: R$ 30 R$ 15 (aposentado, pessoa com mais de 60 anos, pessoa com deficiência, estudante e servidor da escola pública) e R$ 9 (trabalhador do comércio de bens, serviços). Bilheteria: de terça a sexta das 12h às 21h, sábado das 10h às 21h30 e domingo e feriado das 10h às 18h. Duração: 80 min. Classificação: 14 anos. Temporada: até 17 de Dezembro.


Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do  Aplauso Brasil

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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