RESENHA: FINITUDE HUMANA É TEMA DE ESPETÁCULO DE WILL ENO

Maurício Mellone * (redacao@aplausobrasil.com)

OS REALISTAS
OS REALISTAS

SÃO PAULO – No programa da peça Os Realistas, que acaba de estrear na cidade depois de temporada carioca de sucesso, o dramaturgo norte-americano Will Eno diz que espera que sua peça ajude as pessoas a lembrarem de como é difícil ser um ser humano. Questões íntimas, profundas e provocadoras que afetam a alma de todos nós, como morte, vida, perda, amor, abandono, são discutidas por dois casais vizinhos que têm o mesmo sobrenome e moram numa cidadezinha do interior. Diante da doença, cada um deles lida de uma maneira e, no fundo, a existência humana é o tema central discutido pelo dramaturgo. Guilherme Weber — que já teve seis experiências com peças de Eno e assina a direção, adaptação e trilha sonora do espetáculo — afirma que é na “bucólica paisagem campestre que os personagens tentam construir um lugar para suas vidas, para que os espectadores possam descobrir muito a si próprios”. Um espetáculo que incita o público a refletir sobre seu cotidiano.

Com poucos elementos cênicos (uma mesa, quatro cadeiras que são movimentadas pelos próprios atores e um grande painel ao fundo do palco) e pouca ação, a trama é focada no drama daqueles personagens. A peça inicia com o casal, vivido por Mariana Lima e Fernando Eiras, sentado na varanda após o jantar; eles falam banalidades, mas o atrito e a crise do casamento vêm à tona. Ele está doente, ela se preocupa com a saúde do marido, que insiste em dizer que logo estará curado. Eles são interrompidos pelos vizinhos (interpretados por Debora Bloch e Emílio de Mello), que estão alegres e curtindo o luar. O clima entre eles é de entusiasmo e felicidade, o oposto dos vizinhos. No entanto a doença os aproxima: os dois homens sofrem do mesmo mal. Mas, ao contrário dos primeiros, aqui o marido recusa o tratamento e a mulher vive num mundo à parte, alheio à realidade. Desta forma, cada um lida a sua maneira com a doença, assim como com o amor, o abandono, a perda, a crise no casamento, a vida e a morte.
“O casamento é um tema caro à essa peça, aparecendo como um símbolo que encarcera em si próprio todos os outros assuntos apresentados no palco, como vida, morte, superação e inutilezas”, afirma o diretor Guilherme Weber.

OS REALISTAS
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O que mais me chamou a atenção em Os Realistas foi sem dúvida a profundidade do texto e como o dramaturgo põe a nu a existência do homem contemporâneo. A direção é outro destaque: o ágil jogo cênico entre os quatro personagens faz com que o espectador conheça cada uma das visões de mundo apresentadas e se identifique. E isso só é possível pela perfeita sintonia em cena entre Debora, Emílio, Mariana e Fernando.

E os atores Emílio de Mello e Fernando Eiras estão em dobradinha: eles acabam de reestrear no Teatro Jaraguá o também emocionante espetáculo In On It, texto do canadense Daniel MacIvor, em que temas comuns à peça de Will Eno são tratados, como morte, fim do casamento e separação. Prepare o coração e embarque nesta maratona existencial.
* Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

 

Roteiro:
Os Realistas. Texto Will Eno. Tradução: Ursula de Almeida Rego Migon e Erica de Almeida Rego Migon. Direção geral, adaptação e trilha sonora: Guilherme Weber. Elenco: Debora Bloch, Emílio de Mello, Fernando Eiras e Mariana Lima. Cenografia: Daniela Thomas e Camila Schmidt. Figurinos: Ticiana Passos. Iluminação: Beto Bruel. Fotografia: Leo Aversa. Direção de produção: Alessandra Reis.
Serviço:
Teatro Porto Seguro (508 lugares), Al. Barão de Piracicaba, 740, tel. (11) 3226.7300. Horários: sexta e sábado às 21h e domingo às 19h. Ingressos: R$ 100 e R$ 50. Bilheteria: terça a sábado das 13h às 21h e domingos, das 12h às 19h. Estacionamento; serviço de vans gratuito a partir da Estação Luz/ CPTM. Duração: 100 minutos. Classificação: 12 anos. Temporada: até 29 de maio.

 

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