RESENHA: GABRIEL VILLELA TRANSPÕE UNIVERSO DE SHAKESPEARE AO BRASIL

Maurício Mellone * (redacao@aplausobrasil.com)

A TEMPESTADE © Joao Caldas Fº
A TEMPESTADE © Joao Caldas Fº

SÃO PAULO – Considerada a última peça de William Shakespeare, A Tempestade (escrita em 1611, cinco anos antes da morte do autor) ganha uma roupagem brasileira pelas mãos do diretor mineiro Gabriel Villela. Com ícones da cultura popular, como potes de cerâmica, bordados e rendas dos figurinos, móveis e adereços em madeira, elementos religiosos e místicos distribuídos pelo cenário, além das músicas do cancioneiro popular e de compositores como Milton Nascimento (Peixinho do Mar) e Dorival Caymmi (Suíte do Pescador), a montagem transpõe a trama shakespeareana de Próspero, o duque de Milão, que teve o trono usurpado pelo irmão, para a realidade brasileira. Celso Frateschi, como Próspero, lidera o elenco de mais 10 atores, dentre eles Letícia Medella, Chico Carvalho e Helio Cícero.

A TEMPESTADE © Joao Caldas Fº
A TEMPESTADE © Joao Caldas Fº

A plateia fica hipnotizada desde a cena inicial. Aproveitando da estrutura de arena do teatro e com poucos e criativos elementos, os atores entram em cena, se dirigem ao centro do palco e sentam-se em círculo, dando início à magia cênica. Próspero com seu cajado mágico (um velho galho de árvore) e a ajuda do anjo Ariel, vivido por Chico Carvalho, provoca uma tempestade no mar, que atrai para sua ilha o navio da corte de Nápoles.

Detalhe: a tempestade é criada somente com um véu transparente, uma miniatura de navio, a iluminação e o canto e as vozes dos atores, que são redimensionadas pelos potes de cerâmica, usados para reverberar o som. Impossível não ficar preso à trama!

A TEMPESTADE © Joao Caldas Fº
A TEMPESTADE © Joao Caldas Fº

Depois do naufrágio, todos da tripulação conseguem se salvar e buscam abrigo na ilha abandonada. A trama se desenrola com Próspero articulando para que a verdade venha à tona. Contando com a colaboração tanto de Ariel como do escravo Caliban (Helio Cícero), Próspero faz com que o rei Alonso (Leonardo Ventura) descubra que o seu trono de duque de Milão fora usurpado por seu irmão mais novo Antonio (Rogério Romera). O mago também aproxima a filha Miranda (Letícia Medella) do príncipe Ferdinando (Marco Furlan), que se apaixonam.

Como em toda a obra de Shakespeare, A Tempestade contém os sentimentos mais pungentes do ser humano, numa história de vingança, de violência, luta pelo poder, além de amor, reconciliação e, principalmente, perdão.

“Tenho atração e encantamento por obras que traduzem o universo mítico, onírico e poético, como nesta peça. Evidentemente não nos deparamos com um mundo apenas de encantos, mas também repleto de crueldades. Em A Tempestade, peça de despedida do bardo, encontramos um olhar mais benevolente”, argumenta o diretor.

A TEMPESTADE © Joao Caldas Fº
A TEMPESTADE © Joao Caldas Fº

A montagem barroca e brasileira de Gabriel Villela para um texto tão contundente e vigoroso de Shakespeare magnetiza ainda mais os espectadores. As músicas também exercem fascínio e envolvem o público, tanto que ao final estão todos cantando e aplaudindo ao mesmo tempo! Difícil enumerar o que mais agrada na montagem: iluminação primorosa de Wagner Freire, os encantandores figurinos de José Rosa e Gabriel Villela, que também assina o cenário ao lado de Márcio Vinícius, os criativos adereços de Shicó do Mamulengo e a bela maquiagem de Claudinei Hidalgo.

No entanto, a sintonia e o entrosamento dos onze atores em cena é o grande destaque do espetáculo; Celso Frateschi, que já interpretou Caliban em outra montagem, emociona na pele de Próspero. Sem dizer da sensível interpretação de Chico Carvalho e Helio Cícero, que engrandecem seus ricos e antagônicos personagens. Letícia Medella também chamou minha atenção: única mulher no elenco, sua voz doce sobressai nas canções. Outra montagem memorável de Villela para uma peça de Shakespeare!

A TEMPESTADE © Joao Caldas Fº
A TEMPESTADE © Joao Caldas Fº

Um dos grandes destaques da temporada teatral deste ano!
* Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

 

Roteiro:
A Tempestade. Texto: William Shakespeare.Tradução: Marcos Daud. Direção: Gabriel Villela. Elenco: Celso Frateschi, Helio Cicero, Chico Carvalho, Leticia Medella, Dagoberto Feliz, Romis Ferreira, Marco Furlan, Rogerio Romera, Felipe Brum, Rodrigo Audi e Leonardo Ventura. Figurino: Gabriel Villela e José Rosa. Cenografia: Gabriel Villela e Márcio Vinicius. Direção musical: Babaya e Marco França. Direção de texto e preparação vocal: Babaya. Antropologia da Voz: Francesca Della Monica. Iluminação: Wagner Freire. Fotografia: João Caldas. Direção de produção: Claudio Fontana. Produção Executiva: Francisco Marques. Realização: BF Produções.

Serviço:
TUCARENA (300 lugares), Rua Monte Alegre, 1024, tels. 3670.8455 / 8454. Horários: sexta às 21h30, sábado às 21h e domingo às 19h. Ingressos: sexta R$ 50, sábado e domingo R$ 70. Bilheteria: de terça a sábado, das 14h às 19h. Vendas: 4003-1212 ou www.ingressorapido.com.br. Alunos e professores da rede pública de ensino têm 70% de desconto( da inteira), nunca ultrapassando 10% da lotação e com comprovante. Duração: 90 min Classificação: 12 anos. Estacionamento conveniado: R Monte Alegre,835. Temporada: até 22 de novembro.
 

 

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