Resenha: Impactante adaptação teatral do famoso filme de Lars Von Trier

SÃO PAULO – Impossível sair da sala de espetáculo depois de assistir a Dogville sem se questionar e refletir sobre as atitudes do ser humano. Se o filme do cineasta dinamarquês Lars vonTrier, lançado em 2003, causou grande impacto, esta primeira adaptação teatral, sob a direção de Zé Henrique de Paula, vai no mesmo sentido, ou seja, provocar uma profunda reflexão sobre o Homem e as relações da sociedade contemporânea. Tendo como ponto de partida a vida pacata dos moradores de um pequeno vilarejo do interior dos Estados Unidos, a trama disseca o comportamento destas pessoas a partir da chegada da forasteira Grace, papel de Mel Lisboa, que se propõe a ajudá-los por ter sido acolhida. No entanto, ela passa a ser explorada por todos e o lado sombrio de cada morador vem à tona.

O impacto do filme é justamente a teatralidade que o diretor imprimiu para contar a história: com poucos elementos cênicos, as casas do vilarejo eram delimitadas por traços de giz no chão, a narrativa se dá pela atuação do elenco. Nesta adaptação teatral, a direção optou por mesclar as linguagens do teatro e do cinema: há telas que separam encenação, nas quais são projetadas tanto cenas já filmadas como cenas filmadas ao vivo durante a apresentação.

Mais do que retratar o modo simples daquele vilarejo localizado no topo de uma cadeia montanhosa, a trama revela a gama de sentimentos e as mais diversas reações das pessoas a partir do momento em que Grace começa a se relacionar com cada uma delas. Como a garota se mostra bondosa e receptiva em colaborar com todos, eles iniciam uma relação de exploração e abuso.

“A história gira em torno deste vilarejo, em que as pessoas vivem numa zona cinzenta, num eterno dia nublado, agarradas a seus conceitos morais. Grace chega e ilumina esta cidade e faz com que as pessoas comecem a ver as sombras das coisas. A peça e o filme lidam com esta questão: o que você faz com a própria sombra e o que você faz quando enxerga a sombra do outro. Como a gente lida com as nossas próprias imperfeições”, indaga o diretor Zé Henrique de Paula.

O cenário, além das telas, é praticamente restrito a 16 cadeiras, que representam os moradores do vilarejo. Assim como o filme, a peça dá ênfase à crítica social. De acordo com o produtor e idealizador do espetáculo, a história é muito próxima de cada um de nós:

“São situações reais, que colocam uma lente de aumento na alma do ser humano. A trama discute questões como xenofobia, intolerância e a máxima do sistema capitalista, que para se obter lucros é preciso explorar ao máximo o outro, por vezes de forma desumana”, argumenta Felipe Lima.

Além da dramaturgia contundente e reflexiva, Dogville se destaca pela uniformidade e sintonia em cena dos 16 atores. Eric Lenate, porém, tem a chance de mostrar toda a sua versatilidade ao viver dois personagens bem distintos, o narrador e o pai da forasteira. Destaque ainda para Mel Lisboa (que surpreende com a virada de sua personagem), Selma Egrei, Rodrigo Caetano, Bianca Byington e Chris Couto. Produção afinada em que todos os componentes — cenário, visagismo, iluminação, trilha sonora e figurino — estão bem coordenados para o bom desempenho da encenação.

Roteiro:
Dogvelli
. Texto: Lars von Trier. Tradução: Davi Tápias. Direção: Zé Henrique de Paula. Elenco: Mel Lisboa, Eric Lenate, Fábio Assunção, Bianca Byington, Rodrigo Caetano, Anna Toledo, Marcelo Villas Boas, Gustavo Trestini, Fernanda Thuran, Chris Couto, Blota Filho, Munir Pedrosa, Selma Egrei, Fernanda Couto e Dudu Ejchel. Preparação de elenco: Inês Aranha. Assistência de direção: Felipe Ramos. Cenário: Bruno Anselmo. Iluminação: Fran Barros. Figurino: João Pimenta. Visagismo: Wanderley Nunes. Trilha sonora original: Fernanda Maia. Produção musical: Leo Versolato. Produção executiva: Glaucia Fonseca e Dani D’Agostino. Direção audiovisual: Laerte Késsimos. Criação de vídeo mapping: Vj Alexandre Gozales. Fotografia: Ale Catan. Realização: Brisa Filmes e Sevenx Produções Artísticas.
Serviço:
Teatro Porto Seguro (496 lugares), Al. Barão de Piracicaba, 740, tel. 11 3226.7300. Horários: sexta e sábado às 21h e domingo às 19h. Ingressos: sexta R$ 80 e R$ 50; sábado e domingo R$ 90 e R$ 60. Bilheteria: de terça a sábado das 13h às 21h e domingo, das 12h às 19h. Duração: 100 min. Classificação: 16 anos. Serviço de Vans: da Estação Luz ao teatro. Temporada: até 31/03.

* Maurício Mellone publicou o texto no 
www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

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