Resenha: inspirado em fato real, texto de Franz Keppler discute identidade de gênero

São Paulo – Montagem ousada dirigida por Yara de Novaes e Carlos Gradim — Brian ou Brenda? — retrata a história polêmica vivida pela família Reimer, no Canadá nos anos 1960. Com dramaturgia de Franz Keppler, a trama apresenta o caso dos gêmeos Brian e Bruce que foram submetidos, aos 8 meses, a uma cirurgia de fimose (circuncisão), mas Brian teve o pênis cauterizado. Tempos depois novamente o garoto foi submetido à nova cirurgia, de redesignação sexual, e foi criado como Brenda. Mas ter de viver num corpo que nunca foi o seu trouxe graves problemas, tanto para ele como para toda a sua família. Com elenco formado por oito atores, liderado por Augusto Madeira, Lavínia Pannunzio, Daniel Tavares e Marcella Maia, o espetáculo está na segunda temporada, depois de ter estreado no Centro Cultural São Paulo.

Com cenário assinado por André Cortez, a peça começa com o elenco sentado numa arquibancada. Com figurinos (de Cassio Brasil) que sobrepõem trajes masculinos e femininos e com placas no peito que identificam os personagens, os atores interpretam durante o espetáculo todos os papéis (cada um assume o lugar do outro, numa empatia plena).

É desta forma que o drama da família Reimer é contado. Depois das duas cirurgias, Brenda é uma garota infeliz, que vive num corpo que não é o seu. Conscientes do que causaram, os pais, que foram convencidos pelo psiquiatra a submeter o filho à cirurgia de redesignação, contam a verdade para Brenda, que resolve reverter a sua condição, tornando-se David Reimer. Já adulto e casado, ele revela sua história ao mundo e as consequências também foram devastadoras.

“Ao saber da história desta família, fiquei impactado e senti necessidade de contá-la, principalmente pelo fato de saber que fundamentalistas a utilizam para combater a identidade de gênero. Contar esta tragédia familiar ocorrida na segunda metade do século passado é uma forma de nos opormos ao que pregam esses que estão na contramão de tudo o que foi conquistado, compreendido e comprovado até agora”, argumenta Franz Keppler.

Com um enredo forte sobre uma história trágica, a concepção cênica de Brian ou Brenda? traz o espectador para dentro da trama, que é obrigado a estar atento às inúmeras trocas de papéis entre os atores. Destaque para a criativa coreografia, a iluminação potente de Aline Santini e a trilha sonora de Dr Morris que contribui para a condução narrativa. Lavínia Pannunzio, Augusto Madeira e Marcella Maia se destacam na composição de seus personagens. Após o final, Marcella ainda tem um discurso corrosivo contra os preconceitos e LGBTfobia.

Roteiro:
Brian ou Brenda?. Texto: Franz Keppler. Direção: Yara de Novaes e Carlos Gradim. Assistência de direção: Ronaldo Jannotti. Elenco: Augusto Madeira, Daniel Tavares, Giovanni Venturini, Jimmy Wong, Kay Sara, Lavínia Pannunzio, Marcella Maia e Paulo Campos. Cenário: André Cortez. Figurino: Cassio Brasil. Iluminação: Aline Santini. Trilha sonora original: Dr. Morris. Preparação corporal: Ana Paula Lopez. Visagismo: Louise Helène. Fotografia: Heloísa Bortz. Design gráfico: Angela Ribeiro. Direção de produção: Ronaldo Diaféria e Kiko Rieser. Realização: Rieser Produções Artísticas, Diaferia Produções e Da Latta Cultura.

Serviço:
Viga Espaço Cênico (83 lugares), Rua Capote Valente, 1323, tel. 11 3801-1843. Horário: sexta e sábado às 21h e domingo às 19. Ingressos: R$ 20 e R$ 10. Duração: 100 min. Classificação: 14 anos. Temporada: até 09/11.

* Maurício Mellone publicou o texto no 
www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil


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