RESENHA: INTRINCADA RELAÇÃO DE CASAL DE IRMÃOS

 

SÃO PAULO – Inédita no Brasil, a peça do dramaturgo norte-americano Neil Labute, O Bosque Soturno,— com adaptação e direção de Otávio Martins, que também assina a trilha sonora e divide os créditos do cenário com Mirtis Moraes — se passa numa cabana dentro de um bosque, num dia frio e de muita chuva. Em cartaz no Teatro Eva Herz, o espetáculo encera temporada até sexta-feira (24).

Betty, vivida por Guta Ruiz, solicita ajuda do seu irmão Bobby, interpretado por Pedro Bosnich, para limpar todo o local que deverá ser entregue para o novo morador.

Logo de início o público percebe que há uma rivalidade entre os dois, eles se suportam; o rapaz aceita o trabalho proposto pela irmã, pois precisa daquele dinheiro. No entanto, há mais do que a arrumação e limpeza da cabana: traumas da infância e mentiras escondidas vêm à tona e eles terão de superar suas limitações para enfrentar a dura realidade da vida.

Ao entrar, os espectadores já são imbuídos no clima da peça, graças à espessa nuvem de gelo seco e a trilha, que reproduz um forte temporal. O cenário é composto de inúmeras caixas de madeira e por todo o espaço há livros, revistas e objetos espalhados.

É neste caos que Betty entra toda molhada e começa a acender as luzes; logo em seguida Bobby bate à porta e também chega ensopado. Já no primeiro contato eles discutem e este clima de animosidade permanece no transcorrer do dia. A irmã, uma professora universitária, tenta demonstrar naturalidade e explica que eles devem arrumar tudo porque o antigo morador, seu ex-aluno, foi embora às pressas e os pais dele virão para levar suas coisas. Bobby, conhecendo bem o caráter da irmã, desconfia desta história e não descansa até tirar toda a verdade sobre aquela situação.

Neste embate, traumas da infância, mentiras que estavam escondidas e até a relação incestuosa entre eles vêm à tona. Para enfrentar a verdade dos fatos, Betty e Bobby vão precisar superar suas limitações e juntos dar os próximos passos em suas vidas.

Um texto envolvente e repleto de enigmas, que obriga o espectador a ficar bem atento para desvendar a verdade. Guta e Pedro estão em perfeita sintonia em cena, graças à direção voltada à interpretação e ao jogo cênico proposto pelo autor. Além do cenário e iluminação (de César Pivetti e Vania Jaconis) muito adequados, a bela trilha sonora encanta os espectadores, que deixam a sala ainda sob o som da canção If you go away, versão de Ne me quittes pas, cantada por Neil Diamond. Produção bem cuidada para uma história instigante e provocadora. Ainda dá tempo: duas últimas sessões nesta semana. Não percam!

Roteiro:
O Bosque Soturno
. Texto: Neil Labute. Tradução: Flavio Moraes. Direção, adaptação e trilha sonora: Otávio Martins. Elenco: Guta Ruiz e Pedro Bosnich. Cenário: Mirtis Moraes/Otavio Martins. Figurino: Pedro Bosnich. Desenho de luz: César Pivetti e Vania Jaconis. Fotografia: Gustavo Arrais. Design gráfico: Osiris Junior. Produção: 4us e WST Produções.
Serviço:
Teatro Eva Herz (168 lugares), Av. Paulista, 2073, Livraria Cultura / Conj. Nacional, tel. 11 3170-4059. Horários: quinta e sexta às 21h. Ingressos: R$ 40. Bilheteria: de terça a sábado das 14h às 21h e domingo das 12h às 19h. Vendas: 4003-1212 ou  www.ingressorapido.com.br ou.  Duração: 70 min. Classificação: 16 anos. Temporada: até 24/03.

Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil