SÃO PAULO – Os espectadores se sentem como estivessem na plateia da sala de um júri de verdade. Este é o fator de maior impacto do espetáculo A Noite de 16 de Janeiro, que marca a volta aos palcos de Jô Soares depois de 11 anos (seu último solo foi Remix Pessoa, com poesias de Fernando Pessoa). A peça é de tribunal em que os 12 jurados são escolhidos entre o público da sessão. Além da direção, Jô também assina a tradução, em parceria com Matinas Suzuki Jr, e divide o palco com mais 15 atores, dentre eles Marco Antônio Pâmio, Cássio Scapin, Guta Ruiz, Tuna Dwek e Ricardo Gelli. A peça — uma das primeiras ficções de Ayn Rand, russa que fez sua carreira de roteirista e escritora nos EUA — reproduz o julgamento de Andrea Karen (Ruiz), secretária acusada de assassinar seu chefe, o poderoso empresário Bjorn Faulkner, em Nova York, na noite de 16 de janeiro de 1934.

Depois de um vídeo em que Jô explica sobre o julgamento que todos irão participar, a peça tem início com a chamada dos 12 jurados, que sobem ao palco e se dirigem ao espaço do júri. O juiz (Jô) já está a postos e entram o promotor público Jonas Flint (Pâmio), o advogado de defesa Mark Stevens (Scapin), a ré, a estenógrafa (Mariana Melgaço) e o meirinho, que auxilia o julgamento, vivido por Giovani Tozi.

O julgamento tem início com a chegada da primeira testemunha, o legista (Paulo Marcos); primeiramente ele é interpelado pelo promotor e depois pelo advogado. Assim acontece sucessivamente com as demais testemunhas, tanto da acusação como da defesa. Como a plateia não tem informação do que ocorreu antes do julgamento, para poder formar sua opinião sobre o homicídio, o espectador precisa juntar as peças do quebra-cabeça que são fornecidas pelas testemunhas, pelo depoimento da acusada e pelos argumentos finais do advogado e do promotor.

“Esta é uma peça de julgamento e é fascinante porque temos dois finais, ou a ré é declarada inocente ou culpada. Ayn Rand escreveu a peça em 1934 e não foi preciso adaptá-la, tem toda aquela canalhice de corrupção. Qualquer semelhança com a Odebrechet ou OAS é mera coincidência. E o que me chamou a atenção nesta peça é o fato da plateia participar como júri”, explica Jô Soares.

A cada depoimento a história vai se compondo, inclusive com as reviravoltas, devido ao ponto de vista (muitas vezes antagônico) das testemunhas arroladas. Como os testemunhos são curtos, os atores (todos experientes e talentosos) em poucos minutos deixam claras as características de seus personagens.

É o caso de Tuna Dwek, que, com um sotaque carregado e postura arrogante e ranzinza, logo mostra a aversão da governanta Magda Svenson pela ré. Nicolas Trevijano também revela o jeitão rude do vigia noturno que interpreta já na primeira interferência, ao cumprimentar o juiz e na forma de falar. Outra que merece destaque é Erica Montanheiro: a insinuante viúva Nancy Faulkner só traz dúvidas aos jurados quando depõe. As participações de Guta Ruiz e Ricardo Gelli (o gangster) também são fundamentais para a trama, pois eles provocam mudanças bruscas no entendimento do caso. Pâmio e Scapin, com suas interpretações vigorosas para o acusador e o defensor, imprimem ainda mais verdade ao tribunal encenado. Jô Soares, empunhando o martelo, conduz literalmente o espetáculo, tanto na pele de seu personagem como no papel de diretor da encenação.

Saí do espetáculo com a certeza de que a montagem poderia ser um pouco mais enxuta (são duas horas de duração); no entanto o texto e a reprodução de um julgamento encantam a plateia. Destaque ainda para o figurino de Fábio Namatame e a trilha de Ricardo Severo que pontua a trama e o cenário dos irmãos Chris e Nilton Aizner. Não deixe de conferir: a temporada se estende até dezembro. Quem sabe você não sobe ao palco para compor o júri.

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Roteiro:
A noite de 16 de Janeiro. Texto: Ayn Rand. Tradução: Jô Soares e Matinas Suzuki Jr. Direção: Jô Soares. Assistência direção: Mauricio Guilherme.  Elenco: Cassio Scapin, Erica Montanheiro, Felipe Palhares, Giovani Tozi, Guta Ruiz, Jô Soares, Luciano Schwab, Kiko Bertholini, Marco Antônio Pâmio, Mariana Melgaço, Milton Levy, Nicolas Trevijano, Norival Rizzo, Paulo Marcos, Ricardo Gelli e Tuna Dwek. Cenografia: Chris Aizner e Nilton Aizner. Figurino: Fábio Namatame. Música original: Ricardo Severo. Videografismo: André Grynwask e Pri Argoud. Iluminação: Maneco Quinderé. Fotografia: Priscila Prade. Produção: Rodrigo Velloni. Realização: Ministério da Cultura e Velloni Produções Artísticas.
Serviço:

Teatro Tuca (672 lugares), Rua Monte Alegre, 1024, tel. 11 3670.8455. Horários: sesta às 21h30, sábado às 21h e domingo às 19h. Ingressos: R$ 100. Bilheteria: de terça a domingo a partir das 14h. Estacionamento conveniado: Píer Park, Rua Monte Alegre, 835. Vendas: www.ingressorapido.com.br e 4003.1212. Duração: 110 minutos. Classificação: 14 anos. Temporada: até 09 de dezembro.

Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil