Resenha: Marcos Caruso Vive um Palestrante de Artes Plásticas

SÃO PAULO – O ator Marcos Caruso — depois de temporada carioca de sucesso (ganhou Prêmio Shell/Rio de melhor ator) e turnê por Portugal — chega à cidade com o monólogo O Escândalo Philippe Dussaert, do ator e dramaturgo francês Jacques Mougenot. Com tradução de Marilu de Seixas Corrêa e direção de Fernando Philbert, a peça traz Caruso na pele de um palestrante que, a partir da obra de Philippe Dussaert, um pintor especializado em cópias de obras clássicas, discute os limites da arte contemporânea. Além de copiar quadros de Da Vinci e de Manet, dentre outros, Dussaert produziu 19 quadros, tendo como títulos ‘Ao fundo de …’ , em que copiava as pinturas famosas retirando todas as figuras humanas e animais, ficando somente a paisagem de fundo destes quadros. Ao projetar tanto os quadros originais dos grandes pintores como os produzidos por Dussaert, o palestrante questiona com a plateia o que se entende por arte contemporânea: quadros produzidos por um chimpanzé têm o mesmo valor estético de obras de artistas renomados? O que define a obra de arte contemporânea?

O espetáculo reserva várias surpresas ao público e uma das primeiras é ser recebido no saguão do teatro pelo próprio ator, que cumprimenta um a um os espectadores. Com 45 anos de carreira e em seu primeiro monólogo — são mais de 30 peças, além de participações na TV e cinema —, Marcos Caruso revela pleno domínio cênico: com o palco vazio (apenas uma mesa, um banco e um painel onde são projetados os quadros), o ator está à vontade em cena na pele do palestrante.

Logo no início confessa não ser um especialista em arte contemporânea e que foi orientado por uma professora e crítica de arte, tanto que cita trechos da obra dela. E esta confissão (que não é expert em artes plásticas) produz um efeito com a plateia, de identidade e interatividade, já que faz várias perguntas aos espectadores e pede a ajuda deles quando compara os quadros clássicos com os do artista que está analisando. E esta interação palestrante/público permanece até o final quando da análise de um quadro polêmico de Dussaert, vendido por uma quantia vultosa, e que o limite entre arte e engodo é discutido de maneira profunda. Com a plateia à vontade e atenta à explanação, todos são pegos de surpresa com um desfecho inusitado!

Com poucos elementos cênicos e com trilha sonora e iluminação pontuando a narrativa do palestrante, o grande destaque do espetáculo é para a performance de Caruso, que mantém perfeita comunhão com a plateia. Imperdível!

Roteiro:
O Escândalo Philippe Dussaert. Texto: Jacques Mougenot. Tradução: Marilu de Seixas Corrêa. Direção: Fernando Philbert. Elenco: Marcos Caruso. Cenário e figurino: Natalia Lana. Iluminação: Vilmar Olos. Trilha sonora original: Maíra Freitas. Fotografia: Paula Kossatz. Produção executiva:  Thábata Tubino. Realização: Porca Miséria e Galeria de arte Cormovimento.
Serviço:
Teatro FAAP (486 lugares), Rua Alagoas, 903, tel. 11 3662.7233. Horários: quinta a sábado às 21h e domingo às 18h. Ingressos: R$ 80 e R$ 40. Bilheteria: de terça a sábado, das 14h às 20h; domingo das 14h às 17h. Vendas: www.teatrofaap.com.br. Duração: 80 min. Classificação: 12 anos. Estacionamento conveniado, Portão G7. Temporada: até 01 de julho.

Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.