RESENHA: MARCOS DAMIGO REVIVE CLÁSSICO DE MACHADO DE ASSIS

Maurício Mellone * (redacao@aplausobrasil.com)

AS SOMBRAS DE DOM CASMURRO
AS SOMBRAS DE DOM CASMURRO

SÃO PAULO – Em As Sombras de Dom Casmurro, adaptação de Toni Brandão para o clássico romance machadiano, o ator Marcos Damigo, que comemora 20 anos de carreira, encarou o desafio de não só viver o protagonista da obra, o ciumento Bentinho, como o de dar voz aos demais personagens, a esposa Capitu, o amigo Escobar, o agregado da família e o próprio filho Ezequiel, que ele acredita ser fruto da traição da mulher com o melhor amigo. Depois de temporada de sucesso no SESC Ipiranga, o espetáculo, sob a direção de Débora Dubois, não poderia estar num espaço dos mais apropriados: só até o final de maio a adaptação teatral de uma obra daquele que é considerado o maior escritor brasileiro é apresentada num espaço dedicado aos livros, o Teatro da Livraria da Vila, do JK Iguatemi.

Com poucos elementos cênicos (uma mesa, duas cadeiras e alguns objetos), a trama tem início com a chegada de Bentinho a um cômodo isolado da casa, uma espécie de sótão, em que ele se propõe a revisitar sua vida. Assim como no livro, considerado por muitos a obra prima de Machado de Assis, o personagem quer “atar as duas pontas da vida e resgatar na velhice a adolescência“, ou seja, relatar os principais momentos de sua existência.

AS SOMBRAS DE DOM CASMURRO
AS SOMBRAS DE DOM CASMURRO

Assim, Bentinho relembra sua infância alegre ao lado da mãe, o namoro com Capitolina (a vizinha pobre), o período vivido no seminário quando conhece Escobar e tornam- se grandes amigos, a desistência do seminário, o ingresso na faculdade de direito, o casamento com Capitu e o reencontro com Escobar, que se tornou um comerciante bem sucedido e casado com uma amiga de sua esposa. O lado negro da personalidade de Bentinho é ressaltado a partir da morte de Escobar e o início da desconfiança da fidelidade de Capitu: ele deixa vir à tona todo o seu ciúme e o ódio ao filho, que acredita ser fruto da traição da esposa com o melhor amigo.

“Na adaptação, extraí do livro seus conflitos mais importantes, dando a eles a potência da palavra viva e despertando o interesse para a obra de Machado, que possui um enorme poder de alcance junto ao público jovem”, explica Toni Brandão.

Sem dúvida o grande trunfo da montagem é realçar a atualidade e o caráter universal da obra de Machado, que faz um retrato da alma daquele personagem corroído pelo ciúme e pelo sentimento da traição. E Marcos Damigo, num grande momento da carreira, consegue mostrar as várias nuances de um personagem tão conhecido da literatura brasileira, assim como traz à luz os demais personagens da trama; com diferentes posturas, trejeitos e alteração de voz, o ator incorpora cada uma das pessoas que constituem o universo de Bentinho.

Destaque ainda para a cuidadosa direção de Débora Dubois, o elegante figurino de Alexandre Herchcovitch e a iluminação precisa de César Augusto Pivetti. Um espetáculo sensível, impecável, que está em curtíssima temporada.

Não perca!

* Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

 

Roteiro:

Texto: Machado de Assis. Adaptação: Toni Brandão. Direção: Débora Dubois. Elenco: Marcos Damigo. Iluminação: César Augusto Pivetti. Figurino: Alexandre Herchcovitch. Cenário: Duda Huck e Márcio Macena. Trilha sonora original: Gustavo Kurlat. Fotografia: Matheus Heck e Dave Santos. Produção executiva: Renata Nastari
Serviço:
Teatro Livraria da Vila do Shopping JK Iguatemi (125 lugares), Av. Pres. Juscelino Kubitschek, 2041, tel. (11) 5180-4790. Horários: sábado às 20h e domingo às 18h. Ingressos: R$ 60. Duração: 75 minutos. Classificação: 12 anos. Temporada: até dia 29 de maio.

29 de maio.

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