RESENHA: MARIA LUISA MENDONÇA E DU MOSCOVIS PROTAGONIZAM CLÁSSICO DE TENNESSEE WILLIAMS

Maurício Mellone * (redacao@aplausobrasil.com)

UM BONDE CHAMADO DESEJO
UM BONDE CHAMADO DESEJO

SÃO PAULO – O que faz com que uma peça teatral se torne clássica? Sua temática universal, sua densidade dramática, um enredo envolvente, uma discussão relevante sobre a alma humana ou conter personagens de rica e conflituosa dramaticidade? Talvez o clássico contenha todos estes elementos e, por isso, merece sempre ser revisitado. É o caso de Um Bonde Chamado Desejo, do escritor e dramaturgo norte-americano Tennessee Williams, que acaba de estrear no Tucarena, na montagem ousada do jovem e premiado diretor Rafael Gomes, que também traduziu o texto.

Na pele da densa e enigmática Blanche Dubois — personagem que toda a atriz um dia deseja interpretar —, Maria Luisa Mendonça, que divide o palco com Eduardo Moscovis, que interpreta o rude e pragmático Stanley Kowalski, cunhado de Blanche e casado com Stella, vivida por Virgínia Buckowski. Completam o elenco Donizeti Mazonas, Fabricio Licursi, Fernanda Castello Branco e Matheus Martins, que permanecem em cena durante todo o espetáculo dando vida a seus personagens e também movimentam elementos do cenário, ajudam na iluminação e na troca de figurino.

O embate entre o sonho e a realidade, a fantasia e o comezinho cotidiano é o cerne deste texto, que se mostra extremamente atual, atingindo a todos.
Rafael Gomes e sua equipe criaram o espetáculo especialmente para as dimensões e características do Tucarena: no centro do palco redondo (cercado pela plateia) há um trilho que circula um grande módulo retangular, formado por bancos, e mesas (usados e montados à medida que as cenas acontecem). A entrada triunfal de Blanche Dubois é por este trilho: a sonhadora (e decadente) senhora chega para se hospedar na humilde casa da irmã, que está grávida e vive muito bem com o marido. Ela desdenha da situação de vida de Stella e entra em conflito ferrenho com o cunhado, um rude trabalhador que não se conforma com o estilo requintado de Blanche. No entanto, logo vem à tona a verdadeira razão da inusitada visita: Stanley descobre que a cunhada perdeu a propriedade da família, está na miséria e, para piorar, sua reputação também está em ruína, o que a bela senhora não só omite como faz questão de esconder. O mundo de fantasia e sonhos criado por Blanche evidentemente entra em atrito com a crua e dura realidade do dia a dia vivida por Stella e Stanley.

No programa, o diretor se pergunta por que montar em 2015 Um Bonde Chamado Desejo, peça escrita e encenada pela primeira vez em 1947. E ele mesmo responde:

“Para fazer este trabalho dialogar com o mundo e as circunstâncias que vivemos hoje, injetando algum sangue — o nosso sangue, fazendo-o transbordar — nesse texto tão bonito e tão preciso e tão dilacerante e tão vital”, diz Rafael Gomes.

UM BONDE CHAMADO DESEJO
UM BONDE CHAMADO DESEJO

Com previsão inicial de temporada curta (só até o início de agosto), Um Bonde Chamado Desejo se destaca pela concepção cênica ousada e moderna impressa pelo diretor, os cenários criativos e muito bem adaptados ao teatro de André Cortez, a iluminação de Wagner Antônio e os lindos figurinos de Fause Haten. Maria Luisa com sua delicadeza e olhar enigmático mostra todas as nuances da complexa Blanche Dubois e Du Moscovis constrói com verossimilhança o bronco e realista Stanley.

Um clássico revisitado com o olhar contemporâneo. Confira!

* Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

 

Roteiro:
Um Bonde Chamado Desejo. Texto: Tennessee Williams. Tradução e direção: Rafael Gomes. Elenco: Maria Luisa Mendonça, Eduardo Moscovis, Virgínia Buckowski, Donizeti Mazonas, Fabricio Licursi, Fernanda Castello Branco, Matheus Martins. Cenário: André Cortez. Iluminação: Wagner Antonio. Figurino: Fause Haten. Seleção musical: Rafael Gomes. Fotografia: João Caldas. Produção executiva: Katia Placiano.Produtoras: Selma Morente e Célia Forte.
Serviço:
TUCARENA (300 lugares), Rua Monte Alegre, 1024, tels. 3670.8455 / 8454. Horários: sexta às 21h30, sábado às 21h e domingo às 18h. Ingressos: sexta R$ 50, sábado e domingo R$ 70. Bilheteria: de terça a sábado, das 14h ás 19h. Vendas: 4003-1212 ou www.ingressorapido.com.br. Alunos e professores da rede pública de ensino têm 70% de desconto( da inteira), nunca ultrapassando 10% da lotação e com comprovante. Duração: 110 min Classificação: 14 anos. Estacionamento conveniado: R Monte Alegre,835. Temporada: até 02 de agosto de 2015.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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