RESENHA: MARÍLIA GABRIELA PROTAGONIZA TRAMA DO BRITÂNICO NICK PAYNE

Maurício Mellone*, especial para o Aplauso Brasil  (redacao@aplausobrasil.com.br)

Marilia Gabriela e Caco Ciocler atuam em peça no SESC Santana. Foto: divulgação

SÃO PAULO – Com um texto que requer atenção máxima por trazer conceitos da física quântica e das realidades paralelas, o britânico Nick Payne com a peça Constelações procura desvendar os mistérios da vida e da morte por meio da relação amorosa entre um homem e uma mulher.

Dirigidos por Ulysses Cruz, Marília Gabriela vive a cosmóloga Marianne e Sergio Mastropasqua e Caco Ciocler (atuam alternadamente nas sessões) dão vida ao apicultor Roland. A vida do casal é apresentada de maneira aleatória e cada cena é repetida várias vezes, sempre com um tom e uma intenção diferenciados. Como num grande quebra-cabeças, o espectador vai montando as peças da relação amorosa do casal, da cantada inicial, ao namoro, casamento, separação e morte iminente de um deles. O jogo dramático envolve e prende a atenção do espectador, da primeira à última cena.
Sem qualquer elemento cênico, a ação transcorre numa plataforma espelhada e suspensa do chão a menos de um metro por quatro cordas. Roland está só; passados alguns minutos há um black out e com a volta da luz  Marianne já está em cena e os dois iniciam o embate amoroso. No início, o espectador pode ficar sem entender o jogo entre os personagens, que repetem as cenas, mas aos poucos as pessoas percebem mudanças sutis e a evolução daquela relação. Para marcar as mudanças das cenas, o diretor utiliza de recursos de luz, som e marcação dos atores.

Sergio Mastropasqua (foto) reveza com Caco Ciocler como par de Marília Gabriela em “Constelações”. Foto: divulgação

“Nick Payne conduz suas indagações pelos universos paralelos com enorme senso de humor e calor humano. É na atração que Marianne e Roland sentem um pelo outro que a peça se detém. Na vontade sobre-humana de conseguirem se comunicar. A ironia é que seus universos também são paralelos e linhas paralelas jamais se encontram”, explica Ulysses Cruz.

Mesmo com os conceitos de universos paralelos e física quântica, a trama envolve o espectador graças à emocionante história de amor entre Marianne e Roland — a questão da morte, a possibilidade de universos paralelos e uma provável comunicação entre estes universos abre a cabeça do espectador. Confesso que fiquei emocionado com o desfecho da história.

Além do texto provocador, a montagem é extremamente clean, voltada ao desempenho dos atores. Destaque para o criativo cenário de Veronica Valle e Mateus Viana, a iluminação de Domingos Quintiliano e trilha de Miguel Briamonte que pontuam a trama. No entanto a performance cativante de Marília Gabriela é o grande destaque: a atriz, com modulações sutis, retrata as diversas nuances de Marianne. A sessão a que assisti foi com Sergio Mastropasqua, que também dá perfeita sustentação ao cético apicultor.

Espetáculo provocador e com questões extremamente pertinentes das relações humanas contemporâneas.
* Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

 Roteiro:
Constelações
. Texto: Nick Payne. Tradução: Marcos Daud. Direção: Ulysses Cruz. Diretor assistente e de movimento: Leonardo Bertholini. Elenco: Marília Gabriela, Caco Ciocler e Sergio Mastropasqua. Cenografia: Verônica Valle. Figurino e visagismo: Theodoro Cochrane. Iluminação: Domingos Quintiliano. Musica original: Miguel Briamonte. Preparação vocal: Renata Ferrari. Fotografia: Fotos estúdio Miro. Produção executiva: Katia Placiano. Produção: Selma Morente e Célia Forte. Realização Sesc SP.
Serviço:
SESC Santana (280 lugares), Av. Luiz Dumont Vilares, 579, tel. 11 2971-8700. Horários: sexta e sábado às 21h e domingo às 18h. Ingressos: R$ 40, R$20 (estudante, servidor escola pública, + 60 anos), R$ 12 (trabalhador comércio e serviços). Duração: 70 min. Classificação: 12 anos. Temporada: até 19 de março.

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!

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