RESENHA: MONÓLOGO EXPÕE A QUESTÃO INDÍGENA NO BRASIL

Maurício Mellone * (redacao@aplausobrasil.com.br)

“Se eu fosse Iracema”. Foto IMATRA

SÃO PAULO – A estrofe abaixo do poema de Fernando Marques, o autor da peça Se eu fosse Iracema, dá o tom contestador do espetáculo:“Só o homem branco sabe,/ Só o homem branco sobe,/ Só o homem branco salva,/ Os outros homens: selva.” Com a intenção de dar voz a quem menos a tem neste país — as várias nações e tribos de índios —, o solo de Adassa Martins tem como objetivo chamar a atenção de todos para o que foi feito e ainda se faz contra aqueles já habitavam o continente antes da colonização europeia.

“As contradições estão presentes em diversos relatos e textos documentais que usamos na concepção do espetáculo. É uma honra a possibilidade de falar sobre este assunto, de ecoar essas vozes tão caladas desde 1500. Olhamos tão pouco para os índios, e as questões referentes à vida deles permanecem as mesmas até hoje”, argumenta a atriz.

O público ao entrar no auditório de apenas 30 lugares só se depara com um pequeno tronco de árvore; depois de um black out total e sons da chegada de alguém, os espectadores vislumbram um perfil que recebe um foco de luz apenas nos olhos e a atriz começa um discurso todo falado em línguas indígenas. Aos poucos o texto mescla palavras em português com aquelas já ditas anteriormente. O recado foi dado: o protesto contra o desprezo da sociedade brasileira a tudo o que se refere à vida das mais variadas nações de índios, os originários habitantes do continente americano.
De acordo com o diretor Fernando Nicolau, a criação do espetáculo contou com uma extensa pesquisa, tanto de filmes como Índio cidadão?, de Rodrigo Siqueira, Belo Monte, anúncio de uma guerra e A lei da Água, ambos do cineasta André D’Elia, além de obras de grandes conhecedores do universo dos índios, como Darcy Ribeiro, Alberto Mussam e Beth Mindlin e do livro A queda do céu – palavras de um xamã yanomami, de Davi Kopenawa e Bruce Albert, recém-lançado no país.
A pesquisa também se baseou na cultura, nos usos e costumes de algumas tribos, remontando seus ritos de passagem:

“Escolhemos trabalhar o ciclo da vida: a origem do mundo, a infância, a adolescência, a fase adulta na figura da mulher e do ancião, na figura do pajé chegando ao fim do mundo”, explica o diretor.

Além da iluminação precisa de Licurgo Caseira que pontua a narrativa, um dos grandes destaques da peça é a justaposição de vozes dissonantes: além do grito de protesto dos índios, a trama também traz as vozes das classes dominantes e daqueles que defendem o agronegócio, em contraposição ao modo de vida e à cultura indígenas. Ficam patéticas as colocações dos poderosos diante da realidade do país, que sempre desprezou ou desconsidera a existência dos índios na sociedade brasileira.
O figurino de Luiza Fardin também causa grande impacto: sem qualquer tom carnavalesco, a saia longa vermelha de látex e borracha contribui para postura firme e incisiva da atriz, que impõe verdade da primeira à última fala da peça.
Se eu fosse Iracema vem de duas temporadas de muito sucesso no Rio (com indicações a prêmios) e permanece na cidade só até o próximo dia12. Imperdível!

* Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

 

Roteiro:

Se eu fosse Iracema. Dramaturgia: Fernando Marques. Direção: Fernando Nicolau. Elenco: Adassa Martins. Iluminação e cenografia: Licurgo Caseira. Figurino e caracterização: Luiza Fardin. Trilha sonora original: João Schmid. Preparação vocal: Ilessi. Fotografia: Imatra. Caracterização de fotos: Luiza Fardin. Produção executiva: Clarissa Menezes.  Idealização: Fernando Nicolau e Fernando Marques. Realização: SESC São Paulo.

 

Serviço:
Sesc Ipiranga, Auditório (30 lugares), Rua Bom Pastor, 822, tel.: 11 3340-2000. Horários: sexta às 21h30, sábado às 19h30 e domingo às 18h30. Ingressos: de R$ 6 a R$ 20. Bilheteria: terça a sexta das 12h às 21h; sábados, das 10h às 21h30; domingos e feriados, das 10h às 18h. Venda pelo portal www.sescsp.org.br. Duração: 60 mi n. Classificação: 16 anos. Temporada: até 12 de fevereiro.