RESENHA: MONTAGEM OUSADA PARA OBRA DE EÇA DE QUEIRÓS

Maurício Mellone * (redacao@aplausobrasil.com.br)

casa-apodrecida-3SÃO PAULO – Ousadia e criatividade. Estas duas palavras definem bem o espetáculo Casa apodrecida, do Grupo Tronco, em que Leonardo Bertholini dirige e assina a adaptação do romance clássico do escritor português Eça de Queirós, O Primo Basílio. A conhecida trama em que, na ausência do marido, a mulher recebe a visita de um primo e a paixão represada no passado vem à tona numa tórrida relação, é contada sem o uso de qualquer palavra. A ação cênica acontece por meio de uma expressiva coreografia, apoiada numa requintada trilha sonora.
“A experimentação estética dos diversos meios cênicos fez com que optássemos pela ausência da palavra, do texto dito”, diz o diretor, que complementa contando que os cinco atores — Bianca Fernandes, Camille Bonnenfant, Marco Biglia, Nathália Corrêa e Vandré Silveira — participaram de um intenso laboratório de movimento com a bailarina e diretora Kênia Dias.

Numa sala para apenas 40 lugares e com o palco vazio (apenas uns traços marcados no chão delimitando cômodos da casa), a peça tem início com os atores agrupados num canto fazendo uma movimentação intensa, repetitiva e num ritmo acelerado e sincopado. Em seguida na casa do casal, Luísa e Jorge, interpretados por Nathália e Marco, vivem momentos amorosos e são servidos pela criada Juliana (Bianca). O marido viaja e Luísa recebe a visita de uma amiga, Leopoldina interpretada por Camille, ambas muito próximas e afetivas. A entrada de Basílio (Vandré) é impactante: totalmente nu, ele veste o paletó tirando do corpo de Jorge. A cena seguinte é com a chegada dele à casa do casal, em que é carinhosamente recebido por Luísa, o que desencadeia a paixão entre eles. Nada do que acontece na sala foge dos olhares da criada. Luísa e Basílio passam a ter tórridos e constantes encontros amorosos — as cenas são muito bem coreografadas e altamente sensuais. O que irá desencadear o grande conflito da trama é uma carta de amor de Basílio para a amada, que é interceptada pela criada, que começa a fazer chantagens com a patroa.

casa-apodrecida-2A reação fria de Basílio após a conquista, o fim dado às chantagens e a verdade desvendada por Jorge são apresentados de forma sequencial, deixando aquela casa totalmente desestruturada, recriando assim a obra crítica de Eça de Queirós.
Se no início a proposta cênica do Grupo Tronco pode provocar algum tipo de estranhamento ao público, com o desenrolar da trama o espectador se insere a história naturalmente, acatando a opção pela ausência de texto. Além da precisa direção cênica e coreográfica de Bertholini, destaque para a trilha sonora de Ricardo Garcia — elemento essencial para o desenvolvimento da trama — e a interpretação visceral de todo o elenco, ressaltando a performance sensual e vigorosa de Vandré Silveira e a composição de personagem de  Nathália Corrêa e Bianca Fernandes. Só até o dia 13 de dezembro. Imperdível!

* Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

 

Roteiro:
Casa Apodrecida
.
Texto: inspirado no romance O Primo Basílio de Eça de Queirós.
Direção: Leonardo Bertholini.
Elenco: Bianca Fernandes, Camille Bonnenfant, Marco Biglia, Nathália Corrêa e Vandré Silveira.
Direção de movimento e cenário: Leonardo Bertholini.
Iluminação: Marina Arthuzzi.
Figurino: Paolo Mandati.
Trilha sonora: Ricardo Garcia.
Preparação vocal: Renata Ferrari.
Fotografia: Alexandre Hugo.
Realização: Grupo Tronco.

Serviço:
Teatro da Oficina Cultural Oswald de Andrade (40 lugares), Rua Três Rios, 363. Horários: sábado às 19h, segunda e terças às 20h.
Ingressos: gratuitos.
Duração: 70 min.
Classificação: 18 anos.
Temporada: até 13 de dezembro.

No Comments Yet

Leave a Reply

Seu email não será publicado

*