Resenha: montagem retrata a complexa relação entre Van Gogh e Paul Gauguin

SÃO PAULO – Num universo poético e onírico, Van Gogh por Gauguin, espetáculo escrito por Thelma Guedes e dirigido por Roberto Lage, retrata o momento em que o artista plástico francês Paul Gauguin, em delírio no final da vida em razão da sífilis, revê sua relação complexa e tumultuada com o gênio da pintura, o holandês Vincent Van Gogh.

Numa licença poética, a autora recoloca frente a frente os dois artistas que dialogam sobre suas obras e principalmente sobre o curto, porém intenso, período que conviveram na Casa Amarela, em Arles, no sul da França, em 1888, e que depois de uma briga Van Gogh decepou a própria orelha. Numa atuação visceral e sensível, Alex Morenno revive Van Gogh e Augusto Zacchi, Paul Gauguin.

O cenário de Paula De Paoli reproduz um ateliê desarrumado, repleto de telas, molduras, cavaletes e tintas em que Gauguin, em delírio em função da medicação para o tratamento de sífilis, se debate com seus sentimentos de culpa em relação a seu amigo Van Gogh. É durante este transe que o holandês reaparece e, de forma serena e equilibrada — diferente de seu estado quando vivo — procura amenizar as dores de alma de Gauguin. Os dois revivem o período fértil, tumultuado e conflitante em que moraram na Casa Amarela e Gauguin tem a chance de exorcizar os próprios fantasmas e reavaliar tanto o seu trabalho artístico como a obra genial do amigo.
Para o diretor, a intenção da montagem é trazer um Van Gogh espectral, fruto do inconsciente de Gauguin. Já a dramaturga esclarece o objetivo do trabalho:

“A peça não privilegia o embate em torno das diferenças estéticas dos dois artistas geniais, nem o relato biográfico, muito menos a bisbilhotice sobre o que aconteceu entre eles. O espetáculo convida o espectador a um exercício de imaginação”, afirma Thelma Guedes.

Como a sala do teatro propicia proximidade entre palco e plateia, o drama daquele artista embebido em remorso e culpa que é confrontado com seus fantasmas contagia os espectadores, tornando-os cúmplices. O que mais me chamou a atenção na montagem é a forma como Gauguin é apresentado: o artista se mostra atormentado, confuso, ao invés de Van Gogh, que reaparece oniricamente equilibrado. No entanto em vida o gênio holandês sofreu de alucinações e imensa perturbação mental e espiritual. O contraponto emocional entre os dois é nítido em cena graças à brilhante e visceral interpretação, tanto de Augusto Zacchi como de Alex Morenno. Outro destaque, além da primorosa direção e da impactante cenografia, é para a iluminação de Kleber Montanheiro, que conversa com as tonalidades da obra dos dois pintores.
Sem dúvida, um sensível e comovente espetáculo.

Roteiro:
Van Gogh por Gauguin
. Texto: Thelma Guedes. Direção: Roberto Lage. Assistência de direção: Joanah Rosa. Elenco: Alex Morenno e Augusto Zacchi. Cenografia, figurino e projeto gráfico: Paula De Paoli. Iluminação: Kleber Montanheiro. Trilha sonora: Aline Meyer. Fotos e vídeos: Leekyung Kim. Produção executiva: Regilson Feliciano. Direção de produção e administração: Maurício Inafre. Realização: Roberto Lage Produções Artísticas.
Serviço:
Teatro Sérgio Cardoso, Sala Paschoal Carlos Magno (144 lugares), Rua Rui Barbosa, 153, tel. 11 5061-1132. Horários: sábado às 18h30, domingo às 19h e segunda às 20h. Ingressos: R$ 50 e R$ 25. Duração: 75 min. Classificação: 14 anos. Temporada: até 03 de junho.

* Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

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