SÃO PAULO – Data limite é a tradução literal da peça de Priscila Gontijo, Deadline, mas também a situação em que se encontram as personagens da trama. Guta e Nicky, uma atriz e a outra roteirista, interpretadas por Maria Fanchin e Nicole Cordery respectivamente, estão prestes a completar 40 anos e constatam que vivem uma grave crise existencial: enfrentam dificuldades profissionais e financeiras, não constituíram família e estão sós. Elas se conhecem durante os exames ginecológicos de rotina, passam a morar juntas e tentam sobreviver, ou se adaptar, ao hostil mundo burocrático da sociedade atual. Mesmo retratando uma realidade cruel e desumana, especificamente para a mulher, a montagem, dirigida por Fernanda D’Umbra, é recheada de humor e ironia. Todos os personagens masculinos (o patrão, o produtor, o gerente do banco, o namorado) são interpretados por Eduardo Guimarães.

Com figurino feito de plástico bolha (de várias cores) e cenário de cubos infláveis transparentes (assinados por Anne Cerutti), a trama começa com as personagens em pleno exame ginecológico. Enquanto Guta acaba de ser abandonada pelo namorado e ao conversar com o gerente do banco, durante o exame, engata uma conversa sedutora, Nicky, também por telefone, tem inúmeros contatos profissionais, sempre se submetendo aos esdrúxulos pedidos dos produtores e rígidos prazos de entrega de seus roteiros. Em plena crise financeira, profissional e afetiva, elas resolvem dividir o apartamento para tentar, juntas, minimizar as agruras do cotidiano.

“O que temos ali é um mundo barbarizado pela burocracia. As personagens têm duas opções: se perder ou se adaptar, não há meio termo. Elas estão à deriva em um oceano de situações constrangedoras. E a vida dentro dessa linguagem é engraçada e melancólica ao mesmo tempo. Enfim, uma lupa estranha sobre o que existe”, esclarece a diretora Fernanda D’Umbra.

As cenas são praticamente esquetes interligados, em que as situações vividas pelas personagens acentuam o caráter patético, cômico e ao mesmo tempo melancólico e corrosivo da vida delas. O texto de Gontijo tem esta armadilha: o espectador se solta e chega a gargalhar das aventuras de Guta e Nicky, mas é surpreendido com a reviravolta da trama, com a solidão, a tristeza e a total inadequação delas diante da vida.

“Essa peça foi escrita pra quem sente uma dor imensa em estar aqui de maneira tão desajeitada, tropeçando nas palavras. Você escreve pra quem ainda está aqui, mas gostaria de estar lá. Mesmo sabendo que lá não existe. Pra quem chegou aos 40 anos e não sabe o que vai ser quando crescer”, dispara a autora Priscila Gontijo.

Com uma dramaturgia contundente e uma direção que valoriza a atuação dos atores, Deadline envolve o espectador e o faz refletir sobre o mundo que nos cerca. Outro destaque é para a sintonia de Maria Fanchin e Nicole Cordery, que com maestria transitam da comédia para o dramático num átimo. Imperdível, mas se organize: o espetáculo tem somente mais três sessões.

Roteiro:

DeadLine. Texto: Priscila Gontijo. Direção: Fernanda D’Umbra. Elenco: Eduardo Guimarães, Maria Fanchin e Nicole Cordery. Cenário e figurino: Anne Cerrutti. Iluminação: Hernandes de Oliveira. Trilha sonora original: Conrado Goys. Direção de movimento e fotografia: Vitor Vieira. Programação visual: Pablito Kucarz. Produção: Maria Fanchin e Nicole Cordery.

Serviço:

Oficina Cultural Oswald de Andrade (40 lugares), Rua Três Rios, 363. Horários: de segunda a quarta às 20h. Ingressos: gratuitos. Duração: 70 min. Classificação: livre. Temporada: até 25 de julho.

* Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil