RESENHA: NEWTON MORENO MOSTRA EMBATE ENTRE TRADIÇÃO E CONTEMPORANEO EM NOVO TRABALHO

 

SÃO PAULO – O premiado dramaturgo Newton Moreno discute em sua nova peça, Imortais, uma questão crucial da humanidade, nossa finitude. Por meio de um ritual originário da Ilha dos Açores, Portugal, e ainda vivo no sul do país, ‘coberta da alma’, o autor escancara a relação conflituosa entre uma mãe muito ligada às tradições e aos costumes, interpretada por Denise Weinberg, e sua filha, vivida por Michelle Boesche, que renega a crença da mãe e quer esquecer seu passado traumático. Ao saber que a matriarca está doente e à beira da morte, a moça resolve voltar para casa com seu noivo, uma mulher em transformação para homem trans, papel de Simone Evaristo, que tem a missão de reaproximar mãe e filha.

Com direção de Inez Viana e cenografia de André Cortez, a montagem se concentra num cemitério, em que a velha senhora decidiu se instalar. Com uma mala que traz seus trajes e a mortalha, ela quer esperar a morte na tumba que está enterrado seu marido.

De forma até jocosa, ela relembra sua vida amorosa, a relação com as filhas e toda sua trajetória até ali. Quer antes de morrer promover o ritual da coberta da alma para o marido: deseja que a filha assuma a identidade do pai por um dia para que haja as devidas despedidas e que a alma dele se liberte. A filha chega ao povoado e vai direto ao cemitério, pensando que a mãe está morta. Mas ao se encontrarem, os fantasmas, mistérios e traumas do passado reaparecem e ambas voltam a discutir. Quem pode promover a reconciliação entre elas é exatamente o futuro genro da velha senhora, que ao descobrir a verdadeira identidade dele, revela toda sua aversão e preconceito.

“Tradição, família, traição, morte e desamor. Falamos nesta peça de escolha e liberdade, por meio do encontro de três mulheres, no momento em que decidem seguir por outros caminhos, mudar o rumo de suas vidas”, esclarece a diretora Inez Viana.

O que chama a atenção no espetáculo é forma como Moreno narra a história, apresentando separadamente as visões e o entendimento de cada personagem diante da realidade (quando há o embate entre aquelas três mulheres o espectador tem a noção do todo). Outro destaque da montagem da diretora é a sintonia entre cenário (de André Cortez), visagismo (de responsabilidade de Leopoldo Pacheco e Carol Badra) e iluminação, assinada pro Wagner Pinto: quando o grande painel de madeira, que representa o cemitério, se ergue, o efeito de grandiosidade é redimensionado pela luz e sombra que se vê. O clima dramático também é amplificado graças à trilha sonora de Gregory Slivar, executada ao vivo. A comovente interpretação das atrizes, no entanto, sobressai e deixa a todos muito envolvidos na trama.

Denise Weinberg se supera: é impressionante como a atriz consegue transitar do cômico ao trágico num átimo, com uma leve mudança de entonação de voz e postura. Não por acaso que na estreia a atriz foi ovacionada, por longos minutos. Aplausos mais do que merecidos, tanto para a protagonista do espetáculo como para toda a equipe de produção.

Roteiro:
Imortais. Texto: Newton Moreno. Direção: Inez Viana. Direção de produção: Emerson Mostacco.  Elenco: Denise Weinberg, Michelle Boesche e Simone Evaristo. Figurino e visagismo: Leopoldo Pacheco e Carol Badra. Cenário: André Cortez. Iluminação: Wagner Pinto. Trilha Sonora: Gregory Slivar. Fotografia: João Caldas e Eduardo Petrini. Produção: Mostacco Produções. Realização: Sesc
Serviço:
 SESC Consolação, Teatro Anchieta (280 lugares), Rua Dr. Vila Nova, 245, tel. 11-3234 3000. Horários: sexta e sábado às 21h e domingos às 18h. Ingressos: de R$ 40 a R$ 12. Duração: 80 min. Classificação:  14 anos. Temporada: até 30 de julho.

Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

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