RESENHA: NEY PIACENTINI VIVE PERSONAGENS DE CONTOS DE MACHADO DE ASSIS E GUIMARÃES ROSA

RESENHA: NEY PIACENTINI VIVE PERSONAGENS DE CONTOS DE
MACHADO DE ASSIS E GUIMARÃES ROSA

Maurício Mellone * (redacao@aplausobrasil.com.br)

"Espelhos" junta contos de Guimarães Rosa e Machado de Assis de mesmo nome. Foto: divulgação.
“Espelhos” junta contos de Guimarães Rosa e Machado de Assis de mesmo nome. Foto: divulgação.

SÃO PAULO – Com uma montagem concisa e de extrema sensibilidade, o monólogo Espelhos reúne dois contos de mesmo nome, O Espelho. O primeiro de Machado de Assis é de 1882 e o segundo, escrito por Guimarães Rosa 80 anos depois. Em ambos os textos os dois mestres da literatura brasileira dissecam a alma humana, construindo e desconstruindo o ‘eu’ através da imagem refletida no espelho. O espetáculo solo com o ator Ney Piacentini é o resultado de extensa pesquisa e tem direção Vivien Buckup.

“Foi pesquisando críticas e estudos sobre o texto de Machado que chegamos ao conto homônimo de Guimarães Rosa. Era o que faltava para completar o espetáculo: estávamos diante de dois momentos do Brasil, tão diferentes na forma quanto complementares para o que buscavamos”, explica a diretora.

Num espaço bem intimista (apenas 50 lugares), e com cenário de poucos elementos criado por Marisa Bentivegna (tapete, escrivaninha, duas cadeiras e quatro luminárias) é que o ator dá início ao espetáculo, primeiramente lendo o conto; em seguida passa a dar vida ao personagem Jacobina, do conto machadiano, que relata a quatro amigos uma experiência que viveu, dizendo que temos duas almas:

‘Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro…”

O personagem argumenta como estas duas almas se inter-relacionam e como uma interfere na outra. E é de maneira sutil e natural que a montagem introduz a visão de Guimarães Rosa sobre o mesmo tema. Com a intenção de construir e ao mesmo tempo desconstruir o ‘eu’ refletido na imagem do espelho que ator passa a dar voz ao personagem de Rosa. Ney vai aos poucos tirando todo o figurino — como se descolasse uma pele da outra ou espelhasse duas imagens —, assim como retirando todos os elementos cênicos à medida que avança nos argumentos do personagem.

“As horas batiam de século a século no velho relógio da sala, cuja pêndula tic,tac, tic-tac feria-me a alma interior, como um piparote contínuo da eternidade. Anos depois li uma poesia americana e topei com este estribilho ‘Never, for ever! For ever, never!’ Era exatamente assim que fazia o relógio da tia Marcolina. Não eram golpes de pêndula, era um diálogo do abismo, um cochicho do nada”.

A síntese do conto — e da montagem — é sobre a relevância da existência humana. Em apenas 50 minutos, o espectador é transportado tanto para o universo machadiano do século XIX como para o ideário de Guimarães Rosa, da metade do século XX, em que se discute a importância da vida, num momento tão crucial do Homem do século XXI. Como o ditado popular, ‘os olhos são a janela da alma’, Ney Piacentini prende a atenção do público com seu olhar expressivo e cativante. Sem dúvida um espetáculo irrepreensível, de uma delicadeza incomum!

* Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

Roteiro:
Espelhos. Textos: Machado de Assis e Guimarães Rosa. Direção: Vivien Buckup. Assistência de direção: Aline Meyer. Elenco: Ney Piacentini. Figurino: Fábio Namatame. Cenário e iluminação: Marisa Bentivegna. Preparação vocal: Mônica Montenegro. Criação de som: Miguel Caldas. Direção de produção e administração: Maurício Inafre. Fotografia: João Caldas

Serviço:
Oficina Cultural Oswald de Andrade /Sala 7 (45 lugares), Rua Três Rios, 363, tel: 11 32215558. Horários: quinta e sexta às 20h e sábado às 18h. Ingressos: gratuito (retirar 2h antes). Duração: 50 min. Classificação: 14 anos. Temporada: até 19 de novembro.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.