RESENHA: O GRITO NEGRO NA MITSP

Kyra Piscitelli, do Aplauso Brasil (kyra@aplausobrasil.com)

Revolting Music – Inventário das Canções de Protesto que libertaram a África do Sul (Revolting Music – A Survey of the Songs of Protest That Liberated Africa)
Revolting Music – Inventário das Canções de Protesto que libertaram a África do Sul (Revolting Music – A Survey of the Songs of Protest That Liberated Africa)

SÃO PAULO – Às 20h30, do sábado (05), a fila em volta da sala Jardel Filho, no Centro Cultural, comprovou o sucesso da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp). Ao contrário da abertura, em que facilmente se identificava lugares vazios, os espetáculos estão lotados. Os 321 lugares do teatro foram preenchidos sem esforço. E todos estavam ali para assistir um espetáculo da África do Sul. O show performático de Revolting Music – Inventário das Canções de Protesto que libertaram a África do Sul (Revolting Music – A Survey of the Songs of Protest That Liberated Africa).

No show, o compositor e ativista Neo Muyanga traz canções de luta contra o regime de segregação racial, o apartheid, que vigorou até 1994 na África do Sul. E ao romper a fronteira e desembarcar com a performance no Brasil, Muyanga chama os negros do mundo para uma Revolução, para algum caminho que os leve realmente à igualdade.

É um grito necessário. E o compositor tanto sabe disso que não esconde a felicidade que estar no Brasil. Com um português aos trancos e barrancos tenta quebrar a barreira linguista entre Brasil e África do Sul e lembra das violências, que em cada país aparece de uma maneira, e das lutas comuns.

Ainda quando fala em inglês, e com tradução da interprete Laura – a quem chama de seu alter ego – brinca com a plateia e busca uma real e simpática aproximação. Não se trata de um show com script ou algo assim. Tudo é natural.

As músicas tiradas dos movimentos estudantis nas ruas de Soweto, das igrejas e dos dialetos locais não tem a ver com um grito raivoso, ou nem sempre, pelo menos. Ora são calmas, ora satirizam o pop, ora nos convida à união. É na palavra que se deve prestar atenção. Muyanga usa suas “máquinas (os instrumentos e caixas de som) para dar amplitude. Há momentos que parece ter uma banda no palco e não um homem só.

Com a escolha de Revolting Music, a MITsp expande o fazer teatro para a música performática, e assinala que espetáculo vai além de forma e não cabe em conceitos. Havia menos negros que, talvez, devesse na plateia. Mas, é necessário dá-los voz e mostrar aos brancos que a igualdade é ainda uma revolução em andamento, graças a homens como Muyanga.

E após o espetáculo, o amontoado de gente discutindo o show era a prova disso. Dezenas de pessoas que opinavam sobre o que viram. Um espetáculo que rompeu as paredes do teatro e foi levado para quem o assistiu.

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!

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