RESENHA: PEÇA COM GIANECCHINI E TOZZI DISCUTE PODER E AMIZADE

SÃO PAULO – Depois de uma turnê por Portugal, os atores Reynaldo Gianecchini e Ricardo Tozzi chegam a São Paulo, no Teatro Raul Cortez,  com o espetáculo Os Guardas do Taj, do dramaturgo norte-americano Rajiv Joseph e direção conjunta de Rafael Primot e João Fonseca. O autor é filho de indiano e foi buscar numa das lendas sobre a construção do monumento Taj Mahal o mote para a peça.

O imperador Shah Jahan, no século XVII, mandou construir em Agra, na Índia, o mausoléu em homenagem à esposa após sua morte no parto do 14º filho do casal. Segundo a lenda, enciumado com a beleza do monumento, o xá mandou cortar as mãos dos 20 mil homens que trabalharam na obra para que nenhuma outra edificação superasse o Taj Mahal. A peça está centrada na ação dos dois guardas: Humayun (Gianecchini) é filho de militar e de uma obediência atroz, já Babur (Tozzi) é um brincalhão e questiona toda e qualquer ordem. Eles são os escolhidos para executar a ordem imperial, o que irá abalar definitivamente a amizade deles.

Os Guardas do Taj  tem início com Humayun já a postos, de costas para o monumento na véspera de sua inauguração; Babur chega atrasado e ainda se arrumando. Eles não podem olhar para trás — assim como a plateia, que só tem acesso a uma grande muralha que se movimenta durante a trama — e por meio da conversa deles o espectador identifica as personalidades distintas dos dois guardas, que são amigos desde a infância. É durante a noite de vigília que eles descobrem que serão os responsáveis por executar a ordem imperial, o que faz com que os atritos e as diferenças de visão de mundo fiquem mais evidentes e intransponíveis.

Mesmo com opiniões diversas, os guardas executam a ordem macabra e, ensanguentados, passam a questionar preceitos como a beleza, o poder, a fidelidade ao imperador e à ordem e, principalmente, o real significado da amizade. Para Primot, codiretor ao lado de João Fonseca e responsável pela tradução e adaptação da peça, a trama é sobre amizade:

“A peça de Rajiv Joseph é sobre a história da amizade entre estes dois guardas e como ela fica abalada em função das contradições íntimas deles”, argumenta Rafael Primot.

A trama traça um desenho de forte impacto emocional: se no início há um tom cômico e leve, a história ganha uma conotação dramática, com três instantes de profunda comoção.

Produção primorosa (parceria da brasileira Morente Forte com a lusitana Plano 6), em que figurino, cenário, visagismo, iluminação e trilha sonora corroboram para a interpretação vigorosa tanto de Reynaldo Gianecchini como de Ricardo Tozzi. O espetáculo Os Guardas do Taj abre a temporada teatral paulistana 2018 com brilhantismo e audácia.

Roteiro:
Os Guardas do Taj. Texto: Rajiv Joseph. Tradução e adaptação: Rafael Primot. Direção: Rafael Primot e João Fonseca. Elenco: Reynaldo Gianecchini e Ricardo Tozzi. Música original: Marcelo Pellegrini. Figurino: Fabio Namatame. Cenografia: Marco Lima. Iluminação: Dani Sanchez. Visagismo: Guilherme Camilo. Fotografia: Rogério Martins e João Caldas Fº. Produção executiva: Martha Lozano. Idealização: Rafael Primot e Enkapothado Artes. Realização: Morente Forte Produções Teatrais.


Serviço:
Teatro Raul Cortez (513 lugares), Rua Dr. Plínio Barreto, 285, tel. 11 3254-1631. Horários: sexta e sábado às 21h e domingo às 18h. Ingressos: sexta R$ 60, sábado R$ 80 e domingo R$ 70. Bilheteria: terça a quinta das 15h às 20h; sexta a domingo a partir das 15h. Vendas: 11 2626-5282 ou. Duração: 75 min. Classificação: 12 anos.  Temporada: até 25 de março.


Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil