RESENHA: PEÇA COM TARCÍSIO MEIRA E KIKO MASCARENHAS REVERENCIA O TEATRO E A ARTE DE INTERPRETAR

Maurício Mellone * (redacao@aplausobrasil.com)

O CAMAREIRO
O CAMAREIRO

 SÃO PAULO – Por meio da devoção de um camareiro pelo veterano ator da companhia, o dramaturgo britânico Ronald Harwood mostra, em O Camareiro, os bastidores de uma montagem teatral e as relações entre os profissionais na coxia. Com direção de Ulysses Cruz, o espetáculo marca o retorno de Tarcísio Meira aos palcos depois de 20 anos afastado e comemora seus 80 anos de vida e 60 de carreira. A trama se passa em plena segunda guerra mundial e o velho ator (Tarcísio) tenta de todas as maneiras manter de pé a companhia e o teatro — literalmente, pois os ataques aéreos são constantes à cidade. Com tirania ele dirige o grupo, mas sente-se fraco e debilitado e Norman (Kiko), seu devotado camareiro, se desdobra, cuidando não só do figurino e maquiagem, mas de sua saúde e até reavivando a memória dele, que é tratado por todos como ‘Sir’.  Além de mostrar os bastidores da montagem de Rei Lear de Shakespeare, a peça — que serviu de base para o filme Fiel Camareiro do diretor Peter Yates — retrata a íntima relação entre os profissionais da companhia e a reação de todos diante da debilidade física e mental do veterano ator.

O espetáculo proporciona ao público uma experiência de metalinguagem, o teatro dentro de um teatro: ao entrar na sala o espectador fica diante de um palco em que o cenário é a coxia de um tradicional teatro inglês, momentos antes da apresentação da peça.

E quem dá início à trama é Norman que está preocupado com Sir, que teve lapso de memória na rua e todos da companhia duvidam que ele tenha condições de encenar Rei Lear naquela noite. No entanto, o velho ator resiste ao impulso de abandonar a carreira, exige empenho de todos no trabalho e se esforça ao máximo para interpretar seu papel, apesar de estar indeciso e ao mesmo tempo consciente que seu fim é iminente.

É neste momento que Norman mostra ainda mais devoção, avivando a memória do patrão com as falas do personagem e se desdobrando no desempenho de outras funções, como o da contrarregragem. Os demais membros da companhia, principalmente a primeira atriz (Chris Couto), o ator que vive o bobo da corte (Silvio Matos) e a administradora (Karin Rodrigues) demonstram cansaço, desânimo, além de desconfiarem do desempenho e das condições físicas do chefe.

O CAMAREIRO
O CAMAREIRO

O dramaturgo, por meio de O Camareiro, levanta questões que são intrínsecas a todos nós, não só ao profissional do teatro, como indecisões, dúvidas (no caso do velho ator, como construir o personagem), desilusões (amorosas, profissionais) e as diferentes reações diante da morte e da finitude.

Um grande destaque da montagem é a concepção cênica impressa pelo diretor Ulysses Cruz, que traz sua bagagem de TV e cria, com o cenário de Andre Cortez e a iluminação de Domingos Quintiliano, a dimensão exata proposta na trama: o espectador fica diante de duas montagens teatrais, a do Rei Lear e a do drama do esfacelamento daquela companhia.

A trilha sonora original de Rafael Langoni é outro componente primordial para a encenação.

Entretanto a atuação de Kiko Mascarenhas, que conduz o espetáculo mesclando tons dramáticos e cômicos, e a contundente presença de Tarcísio Meira em cena são os grandes destaques da montagem.

O que também me deixou emocionado ao final foi a reação calorosa e entusiasta da plateia ao ovacionar Tarcísio, num sinal de reconhecimento à brilhante carreira dedicada à arte de interpretar. Um dos grandes espetáculos do ano, que felizmente permanece em cartaz até dezembro. Imperdível!


* Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

 

Roteiro:
O Camareiro. Texto: Ronald Harwood. Tradução: Diego Teza. Direção: Ulysses Cruz. Elenco: Tarcísio Meira, Kiko Mascarenhas, Karin Rodrigues, Chris Couto, Karen Coelho, Ravel Cabral e Silvio Matos. Cenografia: Andre Cortez. Figurinos: Beth Filipecki e Renaldo Machado. Produtor de arte: Luis Rossi. Designer de luz: Domingos Quintiliano. Trilha original: Rafael Langoni. Fotografia: Gal Oppido. Visagismo: Rose Verçosa. Direção de produção: Radamés Bruno. Administração geral: Ricca Produções.
Serviço:
Teatro Porto Seguro (484 lugares), Al. Barão de Piracicaba, 740, tel. 11 3226-7310. Horários: sexta e sábado às 21h e domingo às 18h. Ingressos: $ 80 (balcão/frisa) e $ 100 (plateia). Cliente Porto Seguro tem 50% de desconto na compra de um par de ingressos. Vendas: www.ingressorapido.com.br. Duração: 120 minutos, com intervalo. Classificação: 12 anos.
Temporada: até 13 de dezembro.

 

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