SÃO PAULO – Questões morais e éticas da sociedade dissecadas a fundo. É isto que o espetáculo A Profissão da Sra. Warren propõe ao público. E o inusitado é que esta peça do dramaturgo irlandês Bernard Shaw foi escrita há 125 anos — a montagem adaptou a trama para a década de 1950 — e as questões levantadas por ela, como o papel da mulher no mundo, são atuais e refletem a nossa realidade. Com direção de Marco Antônio Pâmio, a trama enfatiza a relação conflituosa entre mãe e filha, interpretadas por Clara Carvalho e Karen Coelho, que tiveram experiências de vida completamente opostas e encaram os desafios de viver num mundo machista também de forma adversa. Completam o elenco Cláudio Curi, Caetano O’Maihlan, Mario Borges e Sergio Mastropasqua.

Como um texto escrito no final do século XIX ainda provoca tanta reflexão sobre o nosso cotidiano? De acordo com o diretor é porque se trata de uma peça transgressora: “É impressionante como esta peça fala de assuntos pertinentes ao nosso tempo, ao papel da mulher na sociedade, na família e na política. Ela é transgressora e estava muito além do seu tempo, tanto que foi censurada na primeira montagem em Nova York. Talvez ela esteja para os americanos como Álbum de Família, de Nelson Rodrigues, esteja para nós brasileiros, porque toca em assuntos polêmicos, como incesto, discussão de paternidade, prostituição”, argumenta Marco Antônio Pâmio.

A trama tem início com Vivie Warren (Karen) gozando de um período de folga, numa casa de campo que escolheu para estudar direito; é lá que vai conhecer os amigos da mãe, a sra. Warren (Clara), como o arquiteto Praed (Mario), o jovem Frank (Caetano), o milionário George Crofts (Mastropasqua) e o reverendo Gardner (Cláudio Curi), pai de Frank e que tem um segredo sobre seu passado com a Sra. Warren.

A chegada da mãe provoca uma verdadeira revolução na vida da filha: a garota frequentou as melhores escolas e nunca se interessou pela vida da mãe, que sempre viveu viajando. Aos poucos e em contato com aqueles homens a verdade vem à tona e Vivie tem ciência de que a mãe, para fugir da miséria, se prostituiu e hoje é dona de uma rede de bordéis. O embate entre as duas é inevitável e, nas discussões acaloradas, questões sobre moral, ética, trabalho feminino e condições sociais de sobrevivência são esmiuçadas e checadas a fundo. Os conceitos são revistos e tanto mãe como filha deixam evidenciadas suas diferenças de opinião e de visão de mundo.

O que mais me chamou a atenção no espetáculo é o vigor do texto de Bernard Shaw, que em nenhum momento julga os personagens ou suas posturas: as ideias (geralmente antagônicas) são amplamente expostas e o espectador é incitado a refletir e tirar suas próprias conclusões. Com uma direção precisa e focada no ator, a montagem se fortalece graças à sintonia cênica entre Clara Carvalho e Karen Coelho (ambas com interpretações pungentes) e as valiosas participações dos demais atores. Destaque ainda para o figurino de Fabio Namatame (o vestido da Sra. Warren é impactante) e para o cenário de Duda Arruk, que com poucos elementos sugerem os diferentes ambientes em que a trama se desenvolve.

Roteiro:
A Profissão da Sra Warren
. Texto: Bernard Shaw. Tradução: Clara Carvalho. Idealização: Rosalie Rahal Haddad. Direção: Marco Antônio Pâmio. Diretor assistente: Thiago Ledier. Elenco: Clara Carvalho, Karen Coelho, Caetano O’Maihlan, Cláudio Curi, Mario Borges e Sergio Mastropasqua. Figurinos: Fabio Namatame. Cenário: Duda Arruk. Iluminação: Caetano Vilela. Trilha original: Gregory Slivar. Fotografia: Ronaldo Gutierrez. Design gráfico: Denise Bacellar. Coordenação de produção: Selene Marinho.
Serviço:
Auditório MASP (376 lugares), Av. Paulista, 1578, tels. 11 3141-5959. Horários: sexta e sábado às 21h e domingos às 20h. Ingressos: sexta R$ 30 e R$15; sábado e domingo R$50 e R$25. Duração: 100 minutos. Classificação: 12 anos. Temporada: até 1º de julho.


* Maurício Mellone publicou o texto no 
www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil