Resenha: peça de Ed Anderson retrata mazelas de personagens que vivem em grandes centros urbanos

São Paulo – Radicado em São Paulo, o dramaturgo baiano Ed Anderson com seu novo trabalho, Piso Molhado, volta a discutir a relação das pessoas com as grandes metrópoles nos dias atuais. Se na peça de 2016, Os dois e aquele muro, a trama girava em torno de dois homens que se conhecem pela internet, desta vez o foco é direcionado para a forma como três personagens, frágeis e desiludidos, lutam para sobreviver. Tudo na trama, dirigida por Mauro Baptista Vedia, acontece no interior da velha boate Faraó, onde Selma, uma cantora decadente interpretada por Patrícia Gasppar, ensaia o repertório do show que irá apresentar logo mais; desanimada, ela é incentivada por Tony, interpretado por Carlos Palma, o pianista que vive das glórias do passado. Ele precisa sair e a cantora permanece ensaiando, quando é interrompida por Osvaldo, papel de Helio Cicero, o encanador que não consegue deixar o local; o pianista levou a chave e eles estão presos. Neste inusitado encontro, a cantora e o encanador revivem suas trajetórias e reavaliam suas vidas.

A cena inicial é com Selma e a filha (Valéria Pedrassoli) num passeio ao zoológico, num passado distante (ou seria só a imaginação da cantora?). Desencantada, ela procura explicações que justifiquem o afastamento da filha e é amparada por Tony. Já com o bronco e rude Osvaldo, Selma vive um enfrentamento inicial, mas como são obrigados a conviver por algumas horas, aos poucos eles buscam o entendimento, já que o encanador, um seresteiro no passado, ficou encantado com a voz de Selma. Eles, depois de confessarem suas dificuldades e infortúnios, chegam até a cantarem juntos!

“Tentei transpor a urgência que sentia em abordar sentimentos de algumas minorias e friccionar suas vozes com o momento atual, proporcionando uma reflexão sobre o lugar do outro e de como a arte pode fortalecer o cotidiano. Há na peça questões da memória afetiva e o humor ácido e melancólico dos personagens que transitam pelo asfalto, tendo cuidado com os pisos molhados ao recordar as várias quedas sofridas”, esclarece Ed Anderson sobre sua obra.

A música, além de ser o meio de subsistência da personagem central, ajuda no fio condutor da narrativa. Segundo o diretor, a peça busca referências na cultura dos anos 1950 e 1960, daí a inclusão no repertório de Selma de sucessos de Maysa, Dalva de Oliveira, Dolores Duran, Cartola e Nelson Gonçalves. Sem grandes pretensões, a dramaturgia toca em temas delicados da vida contemporânea nos grandes centros urbanos, como o abandono, o desemprego, a solidão, a velhice e a falta de afeto, o que aproxima o espectador da trama. Destaque ainda para a iluminação de Fran Barros e os figurinos de Carlos Colabone. Patrícia Gasppar tem a chance de mostrar toda a sua versatilidade: com uma linda voz, encanta a plateia com seus números musicais e dá vida a uma personagem de grande dramaticidade, sem perder o humor. Helio Cicero também mostra as várias facetas de seu personagem, do grosseirão profissional desempregado (vive de bicos) ao sensível e solitário homem de meia idade.
Piso Molhado, contemplado pelo Prêmio Zé Renato de Teatro para a Cidade de São Paulo, cumpre temporada gratuita até final deste mês.

Roteiro:
Piso Molhado
. Texto: Ed Anderson. Direção: Mauro Baptista Vedia. Elenco: Patrícia Gasppar, Helio Cicero, Carlos Palma e Valéria Pedrassoli. Cenografia: Marco Lima. Figurinos: Carlos Colabone. Iluminação: Fran Barros. Trilha sonora e arranjos: Jonatan Harold. Fotografia: Priscila Prade. Direção de produção: Emerson Mostacco. Produção: Cooperativa Paulista de Teatro e Mostacco Produções. Realização: Prefeitura de São Paulo/SMC- Prêmio Zé Renato.
Serviço:
Teatro Cacilda Becker (198 lugares), Rua Tito, 295, tel. 11 3864-4513. Horários: sexta e sábado às 21h e domingos às 19h. Ingressos: gratuitos, distribuídos uma hora antes. Classificação: 12 anos. Duração: 70 min. Temporada: até 28 de julho. . 

* Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

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