Resenha: peça de estreia de Nicolas Trevijano disseca o assassino do ex-Beatle John Lennon

EM REDE – Como os espetáculos, em função da pandemia da Covid-19, ainda estão impossibilitados de serem apresentados nos teatros, com a presença do público, os artistas estão criando formas alternativas para que as peças não deixem de ser exibidas. São desde transmissões online dos palcos, espetáculos gravados e até produções mistas, com trechos ao vivo e outros filmados. O que importa é o espectador ter acesso ao teatro, independente da forma como foi produzido. Com direção de Marco Antônio Pâmio, o espetáculo John e Eu, previamente gravado, marca a estreia do ator Nicolas Trevijano como dramaturgo e revela a mente de um psicopata, Mark Chapman, no dia em que assassinou o ídolo de uma juventude, o ex-Beatle John Lennon.

Tudo se passa no interior de um quarto de hotel; com a câmera frontal, Trevijano começa o relato compondo o figurino do personagem. Ao arrumar os cabelos e colocar os óculos de lentes redondas o público logo percebe se tratar de Mark Chapman. O texto procura fazer um painel da vida daquele homem, mostrando sua infância, sua relação com os pais e traumas que poderiam justificar os desvios de sua personalidade.

Mais do que simplesmente apresentar um relato do dia em que ocorreu o assassinato, a trama disseca aquele homem, mostrando como um fã que ama, idolatra uma figura exponencial da cultura mundial chega ao extremo de matar o ídolo. Quais as razões que levaram Chapman a assassinar Lennon? Pergunta difícil de responder, mas que a trama de Trevijano tenta trazer elementos para que cada um de nós reflita.

“Longe de querer condenar ou vitimizar Chapman, a peça vasculha zonas sombrias de sua psique, relembra sua infância e relações familiares conturbadas, além de identificar semelhanças entre sua história de vida e a de Lennon. Ao final dessa jornada interativa entre o protagonista-narrador e seus fantasmas internos, talvez o espectador consiga compreender melhor as razões que o levaram a cometer o crime”, esclarecer Marco Antônio Pâmio.

 

Além do tema que aguça a curiosidade das pessoas — o que faz com que uma pessoa que admira um artista passe a odiá-lo tanto a ponto de matá-lo —, John e Eu prende a atenção do espectador pela forma como a trama é desenvolvida. O ator, em grande performance, constrói passa a passo aquele psicopata, ao ponto de, na cena final, com os olhos esbugalhados, o espectador perceber a confusão interna vivida pelo personagem. Com uma cenografia rica em detalhes (o quarto de um hotel fielmente reproduzido) e a iluminação que pontua a trama e a movimentação do ator em cena, a produção se destaca pela sensível direção; Pâmio usa de todos os recursos para contar aquela triste história; há câmeras em diversas posições (frontal, superior e nas laterais), além de um vídeo que dialoga e complementa o enredo.

 

Roteiro:

John e Eu. Texto e atuação: Nicolas Trevijano. Direção: Marco Antônio Pâmio. Cenografia e figurino: Cássio Brasil. Iluminação e pós-produção: André Grynwask e Pri Argound. Trilha sonora: Marco Antônio Pâmio. Filmagem, edição e fotografia: André Barmak. Produção executiva: Nicolas Trevijano. Produção: Argus Prod. Artísticas.

Serviço:

Transmissões online pela plataforma Sympla. Horários: de quinta a domingo às 20h. Ingressos: gratuitos. Duração: 60 min. Classificação: 16 anos. Temporada: até 02/05.


* Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil